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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 4:05

O "Projeto Tarcísio" traduz a ambição de ter um bolsonarismo sem Bolsonaro

Qual é o conservador que não está disposto hoje a pagar o custo da vassalagem a Bolsonaro? Talha, corveia, banalidade e até “formariage” — não há no dicionário —, os vassalos aceitam arcar com qualquer custo e prometem a seu senhor, cuja decadência anteveem, o que este pedir. E assim é porque o feudo da direita e da extrema direita ainda tem um senhor — e apenas um. Sim, seu ato na Paulista micou, mas, na sua seara ideológica, quem reúne mais do que aquilo? Se ele exercer o seu poder de veto — ou de voto interno —, quem se lança contra a sua vontade do lado de lá da linha? Dos que estão aí postos, a resposta é uma só: ninguém.

E aqui a questão começa a se adensar e a se tornar mais complexa.

UM PRÉ-PRESIDENTE?
Pela primeira vez no Brasil — se alguém tem memoria de fato similar pretérito que me aponte –, convivemos com um pré-presidente. Já tratei do assunto no rádio, na TV, no meu programa neste UOL e também nesta coluna. A assunção midiática de Fernando Collor como “caçador de marajás” era uma torrente, não esse eflúvio em que vem Tarcísio de Freitas, como uma determinação irresistível, caída da “árvore dos acontecimentos” (Karl Marx). Ele aparece, convenham, em certos nichos, como uma espécie de resposta fatal para o futuro do Brasil. Ocorre que, voltem algumas linhas, não está em curso apenas a sucessão presidencial, mas também a eventual troca de comando no território da direita.

Voltemos à última linha do primeiro parágrafo. Tendo a achar — e não fingirei, a exemplo do que fazem alguns, que tenho bola de cristal — que o “senhor” não está disposto a entregar a sua, como vou definir?, herança a quem, à diferença dele, tem um trânsito bem mais largo nas elites brasileiras. No ato da Paulista, do dia 29 do mês passado, o governador de São Paulo houve por bem ignorar o Supremo — e não nos esqueçamos de que o ato era para exorcizar as “forças malignas” do tribunal — e voltou sua artilharia contra o PT e contra Lula, ainda que prestasse todas as homenagens típicas de um servo fiel a seu senhor.

Bolsonaro, ele mesmo, seguiu outro caminho:
“Se vocês me derem, por ocasião das eleições do ano que vem, 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil. Tarcísio, quando eu falo isso, tem outros 50% para o Republicanos, para o PSD, pro PP, MDB, União Brasil… Se vocês me derem isso, não interessa onde eu esteja, aqui ou no além, quem assumir a liderança vai mandar mais do que o presidente da República. Com essa maioria, nós elegeremos o nosso presidente da Câmara, o nosso presidente do Senado, o nosso presidente do Congresso Nacional, a maioria das comissões de peso no Senado e na Câmara. Lá no Senado, nas sabatinas, nós decidiremos quem prosseguirá nessa missão ou não. Nós indicaremos os integrantes das agências, nós escolheremos, e não o presidente [da República], o presidente do Banco Central e todo o seu secretariado. Nós seremos os responsáveis pelo destino do Brasil. Então o recado: não quero isso para perseguir quem quer que seja; não quero isso para revanchismo; eu quero isso pelo futuro do meu Brasil. E digo mais: nem eu preciso ser presidente. O Valdemar [Costa Neto] me mantendo como presidente de honra do Partido Liberal, nós faremos isso por vocês”.

Como se percebe, dado o que vai acima, ele não se mostra disposto a sair de cena, ainda que seja por intermédio da sobrevivência da sua mitologia. Vejam a sua trajetória e o modo como conquistou parte do eleitorado com o seu sobrenome. Convenham: não é preciso fazer um raciocínio estrambótico para concluir que inexistem razões categóricas para que transfira a sua herança política a um Freitas.

noticia por : UOL

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