Ver Iggy Pop sobre o palco é ver a história feita sendo refeita. Dez anos depois de sua última vinda ao Brasil, à beira de fazer 80 anos, o artista voltou ao país para brindar o público no The Town neste domingo com seu punk tão histórico quanto furioso —assim como quando quebrou a ingenuidade do rock no fim da década de 1960 com os Stooges.
Não só por sua atuação no início do punk, mas principalmente por seu incansável compromisso com um rock cristalino, sujo e indomável, Iggy Pop é uma das maiores entidades da música. Sua rebeldia no palco só bate de frente com sua constância —ao vivo no The Town, foi uma dinamite punk.
A faixa “1970” foi um trem em alta velocidade movido a “power chords”. O clássico “I Wanna Be Your Dog” veio seguido de latidos de Iggy, que cai no chão entre uma estrofe e outra. Como um cão arfando, ele se levanta e volta ao páreo comandando uma das maiores músicas do rock.
Está enganado, porém, quem pensa que o artista é apenas a selvageria do clichê do roqueiro setentista. Em mais de 50 anos, Iggy soube reinventar sua própria música sem perder força —como se controlasse o incontrolável. É o caso de “The Passenger”, faixa que no palco ganha em profundidade com os naipes de metais.
Os naipes ao vivo adicionam uma camada que já estaria de bom tamanho se a banda fosse apenas cordas, teclado e bateria. O grupo, que conta com o guitarrista do Yeah Yeah Yeahs, Nick Zinner, abraça Iggy com groove sem deixar de soar punk em “Raw Power” e “Lust for Life”.
Da mesma forma, o conjunto também sabe quando o astro deve brilhar só. Em “Louie Louie”, canção que passeou por vários artistas do punk, Iggy brinca como se fosse o jovem dos Stooges —transforma o refrão sem se importar com o cânone. A regra primordial do punk é quebrar todas elas.
O vigor do artista só dá sinais de fraqueza na pausa entre uma faixa e outra —deve ser justamente a falta do som musical que o deixa sem energia. O banquinho de madeira no palco, que por vezes ele usa, é um pequeno lembrete que o artista tem muita história. Já sua performance, com o corpo arqueado, imprevisível, com microfone atirado ao chão, lembra que Iggy Pop, o padrinho do punk, está muito vivo.
noticia por : UOL




