Uma boa parte da população parece cansada das grandes intervenções rodoviárias na cidade. Como acontece desde o Plano de Avenidas do prefeito Prestes Maia, na década de 1930, os governos municipais quase sempre priorizam os carros nas obras que planejam e executam.
É o que acontece agora, por exemplo, com os túneis que se pretende construir sob a avenida Sena Madureira, na Vila Mariana, até a avenida Ricardo Jafet, no Ipiranga, na zona Sul.
A prefeitura diz que a obra beneficiará 800 mil pessoas por dia e melhorará a mobilidade urbana na região. Mas os beneficiados serão basicamente os condutores de veículos. Haveria outra solução, com menos impacto urbanístico, que amenizasse o problema de tráfego e envolvesse o transporte público.
Por essas e outras, o projeto da Sena Madureira se tornou polêmico. Moradores da Vila Mariana, inclusive da favela Sousa Ramos, onde vivem 200 famílias que serão removidas, se opõem à construção.
Alegam que haverá um grande impacto ambiental, com três centenas de árvores derrubadas e a transferência da galeria do córrego do Sapateiro, que nasce na Vila Mariana, passa pelo antigo matadouro (hoje Cinemateca), e forma o lago do Ibirapuera. Também dizem que não haverá melhoria significativa no trânsito.
A construção dos túneis, prevista no Programa de Desenvolvimento do Sistema Viário Estratégico Metropolitano, ameaçou sair do papel em 2011, durante o governo de Gilberto Kassab, que chegou a contratar a obra. Mas em 2013 ela foi suspensa por causa de investigações da Operação Lava Jato que envolviam a empreiteira responsável, a Queiroz Galvão.
Durante dez anos não se falou no assunto. Até que o prefeito Ricardo Nunes decidisse tirar o velho projeto da gaveta e fazer os preparativos para a construção com a mesma empreiteira. Em setembro do ano passado, um canteiro de obras começou a ser montado, árvores foram arrancadas e tratores ocuparam a comunidade Sousa Ramos para desalojar as famílias.
Houve uma onda de protestos na Vila Mariana para suspender a construção. Vereadores de oposição passaram a questionar o projeto.
O Commu (Coletivo Metropolitano de Mobilidade Urbana), em conjunto com os moradores, decidiram denunciar a iniciativa para o Ministério Público, por favorecer apenas os carros, causar danos ambientais, problemas sociais e também pelo seu histórico de irregularidades. Três inquéritos foram abertos.
Em novembro, as obras foram interrompidas e o Ministério Público, em fevereiro, recomendou a rescisão do contrato com a construtora num prazo de dez dias. O prefeito Ricardo Nunes cumpriu a determinação e, na sequência, abriu um novo processo licitatório. Os túneis, com cerca de 1,65 km, tinham custo previsto de R$ 531 milhões.
Na quinta-feira (4), houve a primeira audiência pública da nova licitação, no Instituto de Engenharia, para discutir a iniciativa, mas aconteceu uma enorme confusão, com bate-boca e gritaria, envolvendo grupos pró e contra os túneis.
Os ativistas que rejeitam a obra e os moradores da comunidade Sousa Ramos acusaram a GCM (Guarda Civil Metropolitana) de agir com truculência e impedi-los de entrar no auditório. E, ao mesmo tempo, de facilitar a entrada de pessoas alheias ao caso que teriam sido trazidas para a audiência por vereadores que apoiam o governo.
Em nota, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras afirmou que “não houve restrição à participação da população, e os inscritos tiveram garantido o direito de manifestação”.
A obra na Sena Madureira está exaltando os ânimos. Em parte por ter sido iniciada no ano passado de forma repentina e sem consulta popular, apesar do impacto social e ambiental. Mas há também duras críticas ao padrão dos governos municipais de só pensarem no transporte rodoviário como solução para os problemas urbanos.
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noticia por : UOL


