
Manifestações contra o governo do Peru em Lima em 28 de setembro de 2025.
REUTERS/Angela Ponce
Uma onda de protestos da Geração Z contra o governo do Peru causou o caos nas ruas do país nos últimos dias. Na capital Lima, manifestantes entraram em confronto com a polícia e dezenas ficaram feridos.
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Os protestos começaram em 20 de setembro por conta de uma insatisfação com uma reforma no sistema de aposentadoria do país movida pelo governo de Dina Baluarte, que passaria a obrigar todos os peruanos acima de 18 anos a aderir a um provedor de pensão.
Mas não só isso. as manifestações também foram impulsionados por uma insatisfação duradoura da população contra Boluarte e o Congresso, além de um descontentamento de longa data com escândalos de corrupção, insegurança econômica e o aumento da criminalidade no país.
👉 Força da juventude: Assim como em outros lugares do mundo, as manifestações no Peru foram organizadas majoritariamente por jovens da “Geração Z”. Esse é o nome popular dado às pessoas nascidas entre 1995 e 2009, com algo entre 16 e 30 anos.
Outro fator de revolta é a falta de responsabilização pelas dezenas de mortes pela polícia em manifestações quando Boluarte assumiu o poder, no fim de 2022, após a destituição e prisão do ex-presidente Pedro Castillo.
“Existe um nível baixo, mas constante, de descontentamento no Peru, e isso já acontece há bastante tempo”, disse à agência de notícias Reuters Jo-Marie Burt, professora visitante do programa de estudos latino-americanos da Universidade de Princeton, que pesquisa política peruana há décadas.
Esse descontentamento, segundo Burt, tem sido alimentado por escândalos de corrupção, insegurança econômica, aumento da criminalidade e revolta com a falta de responsabilização pelas dezenas de manifestantes mortos pelas forças de segurança quando Boluarte assumiu o poder no fim de 2022, após a queda e prisão de Pedro Castillo.
Relatório do Instituto de Estudos Peruanos, de julho, mostra que a aprovação de Boluarte é de 2,5%, enquanto a do Congresso é de 3%.
Além da agitação em Lima, os protestos afetaram a indústria de mineração do país. A Hudbay Minerals (HBM.TO) informou na terça-feira que suspendeu temporariamente as operações de sua usina no Peru em meio à onda de protestos. O Peru é o terceiro maior produtor mundial de cobre e também um importante produtor de ouro e prata.
A juventude do Peru vai às ruas
Os protestos da Geração Z no Peru seguem movimentos semelhantes realizados por jovens na Indonésia e no Nepal. Um símbolo recorrente nas manifestações é uma caveira com chapéu de palha, referência ao mangá japonês One Piece, sobre piratas em busca de tesouros.
Leonardo Muñoz é um dos manifestantes em Lima que adotaram o símbolo.
“O personagem principal, Luffy, viaja de cidade em cidade libertando as pessoas de governantes tirânicos e corruptos em cidades de escravos”, disse Muñoz. “Isso representa o que está acontecendo em vários países. E é isso que está acontecendo agora no Peru.”
Segundo o Instituto Nacional de Estatística do Peru (INE), 27% da população do país tem entre 18 e 29 anos.
“Estamos cansados de normalizar isso. Desde quando normalizamos a morte, desde quando normalizamos a corrupção, a extorsão?”, disse Santiago Zapata, estudante e manifestante.
“Minha geração está indo às ruas agora porque estamos cansados de ser silenciados, de viver com medo, quando o governo que elegemos é que deveria temer a nós.”
O retrocesso democrático no Peru e no mundo
Os protestos, segundo Burt, acontecem em um contexto mais amplo, no qual democracias em todo o mundo estão sob pressão, e seguem medidas do governo para enfraquecer tribunais, órgãos de controle e procuradores.
“Lembra muito o que aconteceu nos anos 1990 sob Fujimori, quando o sistema de justiça foi essencialmente capturado para consolidar o controle autoritário”, disse.
Com menos pressão dos Estados Unidos para a defesa da democracia no exterior e preocupações persistentes sobre o enfraquecimento das instituições eleitorais antes das eleições de 2026, Burt lembrou que protestos anteriores no Peru ajudaram a “segurar a linha contra a captura das instituições” e até mesmo derrubaram presidentes.
“Forças democráticas, mesmo quando há quase controle total por sistemas autoritários, podem se mobilizar e agir de maneiras inesperadas que geram resultados positivos”, disse Burt, acrescentando que um fator-chave será a capacidade de sustentar os protestos ao longo do tempo. “A ópera ainda não terminou.”
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Fonte: G1



