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Cuiaba - MT / 6 de março de 2026 - 22:34

Palco de tragédia, Jamile viveu troca de donos e CNPJ e se livrou de ação por fraude

Palco de tragédia no último dia 8, quando o desabamento de um mezanino matou a cozinheira Suênia Maria Tomé Bezerra, o Jamile passou por diferentes donos e CNPJs e escapou de uma acusação de que estaria sendo usada para blindar patrimônio da Cavalera –que está sob recuperação judicial– diante das cobranças de credores.

A resposta sobre a quem pertence o restaurante na Bela Vista, em São Paulo, parecia fácil até aquele dia 8: o Jamile era associado publicamente ao chef Henrique Fogaça porque ele mesmo dizia ser sócio da empresa ao lado de Alberto Hiar, fundador da Cavalera.

Depois do incidente, Fogaça passou a negar vínculo societário com o Jamile, e Alberto Hiar, por sua vez, submergiu. De fato, nenhum deles esteve à frente do restaurante no papel.

A mudança de tom passa por processos judiciais, mudanças de CNPJ, registros no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) e disputas na recuperação judicial da Cavalera.

De forma direta ou por meio de advogados, todos da família Hiar citados na reportagem foram mais de uma vez procurados na semana passada. Ninguém se manifestou. Fogaça, por sua vez, disse que chegou a discutir uma sociedade no restaurante, mas que ela não foi levada adiante.

O Jamile foi oficialmente inaugurado em setembro de 2015 quando pertencia a uma cunhada de Alberto Hiar, Viviane Esteque, dona da razão social Tredici Bar.

Única sócia, ela outorgou no mês seguinte à abertura do restaurante uma procuração que deu amplos poderes para o filho de Alberto, Hanna Hiar, gerenciar o Jamile. Podia abrir ou fechar contas, fazer retiradas e demitir ou admitir funcionários, entre outras coisas.

Foi um cenário que vigorou até o final de 2020, quando Viviane registrou em ata que abriria mão do ponto comercial. Transferiu a empresa a um apartamento e mudou seu objeto social para serviços de hospedagem de internet.

A ata é de outubro de 2020 e foi registrada na Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo) em 18 de janeiro de 2021, dias depois de a empresa receber R$ 333 mil em transferências da K2, principal controladora da Cavalera.

A K2 pediria recuperação judicial em maio e, com a aprovação do plano, teria suspensas as ações de execução a que respondia. Mas extratos bancários juntados ao processo de recuperação judicial chamariam a atenção do Santander, um de seus credores.

O banco acusou judicialmente a K2 de repassar R$ 6,8 milhões a terceiros que, embora ligados à família mantenedora da Cavalera, nunca integraram de fato o grupo econômico da grife.

Para a instituição financeira, isso serviu para blindar patrimônio da marca “e obstar a liquidação forçada de seus débitos” por credores da grife, em recuperação judicial. “Um verdadeiro calote no mercado financeiro”, afirmou.

Eram 24 alvos ao todo, entre os quais Viviane Esteque e o Tredici Bar, a quem o Santander se referiu como restaurante “do conhecido chef de cozinha Henrique Fogaça”.

A ação argumentou que o patrimônio do Jamile se confundia com o da Cavalera por dois fatores em especial: a procuração outorgada a Hanna Hiar e, depois, as transferências recebidas pela empresa de Esteque a partir da K2.

Viviane afirmou em juízo ser a única proprietária da empresa. “Diferentemente do alegado, a sócia apenas deu amplos poderes para seu sobrinho administrar a empresa por problemas de saúde que passou a enfrentar”, disse.

A decisão final isentou ela e sua empresa e puniu metade dos 24 acusados –eles passaram a responder solidariamente pela dívida contraída junto à instituição financeira.

O Santander tentou recorrer pedindo que a irregularidade fosse reconhecida a todos, sem sucesso. O caso foi encerrado em 30 de setembro deste ano, nove dias antes da queda do mezanino que matou a cozinheira Suênia.

A empresa da cunhada de Alberto Hiar já não atua mais no endereço do Jamile desde que mudou de endereço. O local agora funciona como Studio Bar e Restaurante, um CNPJ em nome de Mislaine Monteiro da Silva, moradora de um conjunto habitacional em Itapevi (SP).

Ela está à frente apenas do estabelecimento no ponto físico. O Jamile, afinal, é também uma marca registrada no Inpi que pertenceu até julho de 2024 ao Tredici Bar, da cunhada de Alberto Hiar.

Depois, acabou transferida gratuitamente a uma holding de dois sócios: Maria Luiza Hiar, filha de Alberto, e José Genilson Tomé Bezerra, irmão da cozinheira Suênia, vítima do desabamento.

A mudança de titularidade ocorreu um mês antes do julgamento da ação do Santander que apontava confusão patrimonial do Jamile com a Cavalera. A decisão isentou a primeira dona do restaurante, mas atingiu Maria Luiza, sócia da holding que assumira a marca no Inpi.

O atual contador do Jamile, Maurício Pinheiro Lopes, também prestava serviço à Cavalera, apontam documentos da recuperação judicial. Ele afirmou à reportagem que não trabalha para a grife há mais de dez anos.

Hoje, tanto a empresa Tredici quanto a Studio Bar são credoras da grife na recuperação. São representadas pela mesma advogada e se apresentam com o mesmo endereço, a rua 13 de Maio. A petição foi assinada em 2022, mas o Tredici não está ali desde 2021.

A Folha enviou perguntas ao Jamile, que em resposta disse priorizar neste momento o acolhimento às vítimas do incidente e à ampla colaboração com as autoridades. Afirmou também que “prestará os devidos esclarecimentos à Justiça quando requerido”.

A assessoria de Fogaça disse à Folha o chef profissional participou da identidade culinária do Jamile e que por isso, somada a uma questão de afinidade, se autodeclarou sócio da empresa em entrevistas.

Afirmou também que a colaboração do chef se limitou à assinatura do cardápio e que Fogaça “não possui qualquer relação com processos judiciais ou alegações de natureza patrimonial envolvendo terceiros”.

Em uma das entrevistas, Fogaça também cita Anuar Tach como sócio no Jamile. A Folha tentou contato com ele por meio de redes sociais, mas não conseguiu.

A advogada que representa o Tredici e o Studio Bar na recuperação judicial da Cavalera não atendeu as ligações no telefone que consta de seu cadastro na OAB.

O telefone que Mislaine, dona do Studio Bar, cadastrou em um documento que consta do processo de recuperação judicial não existe.

A Folha procurou por e-mail o escritório que representa o grupo Cavalera na recuperação judicial da grife, mas não houve retorno.

Jamile: linha do tempo

jun.2015 Tredici Bar, de Viviane Esteque, vira uma microempresa (ME);

jun. 2015 Tredici Bar pede para registrar marca Jamile no Inpi;

set.2015 Jamile é inaugurado ao público;

out.2015 Dona do Jamile, Viviane Esteque outorga procuração dando amplos poderes a Hanna Hiar, seu sobrinho e filho de Alberto Hiar;

jul. 2019 Studio Bar é aberto na Jucesp em nome de Mislaine Monteiro da Silva; CNPJ passa a operar o restaurante Jamile;

jul. 2019 Contador que assinou requerimento pela abertura é Maurício Pinheiro Lopes, que naquele ano também prestava serviço a empresas da Cavalera, segundo documentos; ele nega e diz que cabia à empresa retirar cadastro;

jan. 2021 Tredici Bar recebe R$ 333 mil em transferências da K2, controladora da Cavalera;

jan. 2021 Tredici Bar abre mão do ponto comercial e vira uma empresa de hospedagem de internet; sede é alterada para um apartamento, e Studio Bar permanece no negócio;

mai. 2021 Principais controladoras da Cavalera pedem recuperação judicial;

jul. 2021 Credor do grupo, Santander acusa 25 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, de pertencerem ao grupo Cavalera de forma oculta; entre elas o Tredici, que operava o Jamile;

jun. 2023 Tredici se manifesta no processo, e Viviane Esquete diz ser a única dona da empresa e nega acusações de que teria sido utilizada para blindar patrimônio;

jul. 2024 Tredici Bar, da cunhada de Alberto Hiar, transfere gratuitamente a patente da marca Jamile para a holding MG Gestão, registrada em nome da filha de Alberto e de José Genilson Bezerra, irmão da vítima da queda no mezanino;

ago. 2024 Justiça acolhe parcialmente pedido e reconhece que 12 dos envolvidos devem responder pela dívida da K2 com o banco; decisão nega pedido contra Viviane e Tredici, mas acata contra Maria Luiza Hiar;

out. 2025 Mezanino do Jamile cai e mata Suênia Tomé Bezerra, cozinheira e irmã de Genilson, sócio da holding;

out. 2025 Chef Henrique Fogaça, que nos últimos anos deu uma série de declarações indicando ter aberto o Jamile com Alberto Hiar e Anauar Tach, passa a negar ser dono;

out. 2025 Fogaça diz à Folha que declarações anteriores em que se denominou sócio do Jamile vieram por questões de afinidade e em sentido colaborativo, não jurídico

noticia por : UOL

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