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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 4:48

Trump promete enriquecer a Venezuela, mas custará mais do que dinheiro

A Venezuela parecia estar entrando em uma era de ouro capitalista em meados dos anos 1990. O país abria sua indústria de energia nacionalizada, atraindo capital estrangeiro e know-how empresarial.

“Você não conseguia encontrar um apartamento em Caracas”, relembra Ali Moshiri, que trabalhava para a Chevron na época e frequentemente estava no país para monitorar suas operações. “Era uma corrida do ouro”.

Mas em 1998, o preço do petróleo despencou, abrindo um buraco no orçamento do governo. Os líderes do país cortaram gastos, preparando o terreno para uma reação política e a eleição do populista de esquerda Hugo Chávez.

Após a captura pelos EUA do sucessor de Chávez, o ditador Nicolás Maduro, no início deste mês, o presidente norte-americano, Donald Trump, pintou um quadro econômico otimista para a Venezuela. Ele prometeu que dezenas de bilhões de dólares de capital dos EUA seriam injetados no país sul-americano, tornando-o “muito bem-sucedido”, e disse que a intervenção já estava “tornando a Venezuela rica e segura novamente”.

Mas a história venezuelana mostra que o capital estrangeiro por si só está longe de ser uma garantia de sucesso ou estabilidade. A economia do país tende a funcionar melhor quando esse investimento é acompanhado por altos preços do petróleo —algo sobre o qual Trump tem pouco controle— junto com um governo que responde às frustrações populares sobre corrupção e desigualdade, questões que parecem estar bem abaixo na lista de prioridades de Trump.

Simplesmente reconstruir a indústria petrolífera sem mudanças políticas e econômicas mais profundas dificilmente transformará a Venezuela em um país onde a riqueza é amplamente compartilhada, afirmam especialistas. A maioria dos países que dependem de um recurso natural como o petróleo são vulneráveis a ciclos de expansão e retração, e é raro que eles consigam entrar no clube das economias plenamente desenvolvidas. Mas a Venezuela tem desafios até para esses padrões.

“É um regime que é administrado principalmente por ideologia e muita corrupção”, comentou Jeffrey Davidow, que serviu como embaixador dos EUA no país em meados dos anos 1990. “Isso não é a Noruega construindo um grande fundo soberano para distribuição”, complementou.

A nacionalização frequentemente desperta horror em empresários e economistas, mas quando ocorreu na indústria petrolífera em meados dos anos 1970, ela veio acompanhada do que os venezuelanos costumam descrever como uma “bonança” econômica.

Com o preço do petróleo disparando em meio ao embargo e a crise de oferta do período, a economia venezuelana passou a ostentar uma das maiores taxas de crescimento da América Latina.

“A moeda era muito forte e, como resultado, as importações eram baratas”, lembra Néstor Carbonell, que era executivo da PepsiCo na ocasião.

Isso foi bom para empresas norte-americanas como a Pepsi. Carbonell recorda que vivia com sua família em uma bela casa de três andares com um jardim exuberante em um beco sem saída em Caracas. “A maioria dos negócios era muito próspera”, relembra.

Tão prósperos, de fato, que os venezuelanos creditaram ao presidente que nacionalizou a indústria petrolífera, Carlos Andrés Pérez, ter ajudado a transformar seu país na “Arábia Saudita da Venezuela”.

Mas todo esse dinheiro do petróleo inchou a burocracia estatal. A corrupção aumentou, e setores-chave da economia se deterioraram. À medida que o governo se tornou cada vez mais dependente da receita do petróleo, ele se tornou mais vulnerável às flutuações do preço do petróleo.

Não muito tempo depois que Pérez deixou o cargo em 1979, o preço do petróleo começou a cair, e recessões brutais se seguiram. Lembrando dos dias de bonança, os venezuelanos trouxeram Pérez de volta à presidência uma década depois, apesar da sombra de corrupção que há muito o seguia.

Desta vez, Pérez abandonou seus modos populistas e contratou um gabinete cheio de tecnocratas. Eles reduziram os subsídios de preços e venderam empresas estatais, como os economistas há muito recomendavam.

Eles também abriram a indústria petrolífera para investimento estrangeiro —bem semelhante ao remédio que Trump está prescrevendo hoje. O ambiente de negócios melhorou, atraindo pessoas como Moshiri, da Chevron.

“A América Latina é percebida como estando em expansão”, disse Bill Mullenix, que supervisionou as operações da Pepsi na Venezuela entre 1996 e 2000, referindo-se à perspectiva da época. “As pessoas estão falando sobre como teremos um time da Major League Baseball (liga profissional de beisebol dos EUA) em Caracas”, declarou.

Tranquilizadas pelo que percebiam como a melhoria da gestão econômica do governo, muitas empresas fora da indústria petrolífera também começaram a investir. A Pepsi gastou bem mais de US$ 100 milhões construindo uma nova fábrica e rede de distribuição, recordou Mullenix.

Cada vez mais estrangeiros influentes chegavam, discursando em restaurantes e hotéis glamourosos, como o Tamanaco InterContinental. “Era como o Fontainebleau em Miami Beach”, comparou Luis Montoya, que compôs o conselho da Pepsi na Venezuela. “O Tamanaco, esse era, nos anos 1990, o lugar para se hospedar.”

Mas o clima de negócios em alta mascarava uma frustração latente. Tumultos se seguiram quando o governo removeu subsídios para a gasolina, e houve até tentativas de Chávez e seus apoiadores de derrubar o governo à força.

O governo parecia estar mais preocupado em cortejar investidores estrangeiros do que em conter os protestos locais. “O custo de vida era muito alto, e não havia rede de segurança social, nem programas sociais”, lembrou José Guerra, economista que trabalhou no banco central do país na época. “Era uma bagunça”.

Quando o preço do petróleo desabou em 1998 e o governo cortou gastos, foi a faísca que incendiou o sistema político do país. Os venezuelanos tendiam a acreditar que seu país era rico, e que se eles não estavam se beneficiando, e que isso deveria ser porque a elite política estava roubando deles, disse David Smilde, especialista em Venezuela da Universidade Tulane que viveu no país nos anos 1990. Chávez fez campanha para recuperar a riqueza petrolífera da Venezuela para o povo e venceu facilmente a eleição presidencial de 1998.

Pelo menos inicialmente, o populismo de esquerda de Chávez parecia funcionar para a economia. Embora sua gestão fosse repleta de corrupção e ineficiência, o regime distribuiu a receita petrolífera do país de forma muito mais ampla do que antes. Crucialmente, o preço do petróleo estava subindo, e havia muito mais riqueza para distribuir.

“Você realmente começava a sentir um pouco de impulso”, recordou Mullenix. “Da nossa perspectiva, havia dinheiro na rua.”

Seu colega Montoya lembrou que os volumes de vendas da Pepsi sob Chávez em meados dos anos 2000 estavam entre os mais altos na Venezuela, e muito mais altos do que em qualquer momento desde então. Um reluzente hotel Four Seasons abriu em Caracas no início dos anos 2000 e parecia sinalizar outro boom.

Então a “maldição do petróleo” também atingiu Chávez. No final da década, seu milagre econômico foi desfeito pela queda dos preços do commodity e a derrocada de políticas disfuncionais. Ele havia substituído tecnocratas na empresa estatal de petróleo por aliados fiéis e se apoiado em seu desdém pela democracia liberal. Ele havia consolidado o poder reescrevendo a Constituição do país e promulgando leis unilateralmente, além de nacionalizar ativos petrolíferos estrangeiros.

Mas mesmo os seus críticos reconheceram que Chávez tinha a ideia certa em pelo menos um aspecto: o impulso de distribuir a riqueza petrolífera da Venezuela de forma mais ampla. “Acho que nessa questão Chávez estava certo”, avaliou Guerra, que mais tarde representou um partido de oposição na Assembleia Nacional. “As pessoas não viam que o boom do petróleo beneficiava a classe trabalhadora e as pessoas pobres”.

Enquanto Trump promete ajudar a reviver a economia venezuelana, o país experimentou mais de uma década de corrupção em larga escala e dificuldades extraordinárias para a grande maioria de sua população.

O preço do petróleo não está ajudando. Está em torno de US$ 60 por barril, muito abaixo de onde estava durante grande parte da ditadura de Chávez, e Trump indicou que quer baixar ainda mais o preço.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que os Estados Unidos controlarão a receita futura do petróleo para garantir que beneficie o povo venezuelano, e alguns especialistas dizem que há razões para acreditar que ela fluirá para o orçamento nacional e financiará as escolas e hospitais que o regime de Chávez ergueu, mas deixou deteriorar.

Outros são mais céticos. Eles afirmam que bombear mais petróleo sob o governo atual beneficiaria principalmente a elite, sustentando a corrupção e fazendo pouco para elevar os pobres e a classe trabalhadora.

noticia por : UOL

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