Se for possível acreditar nas ambiciosas afirmações feitas em um vídeo caprichado de divulgação, compartilhado no dia 4 de janeiro em preparação para a feira de tecnologia CES, uma revolução das baterias chegará ainda neste ano, com potencial de virar o mercado de veículos elétricos de cabeça para baixo e, em última instância, inaugurar uma nova era de carros e caminhões com recarga rápida e grande autonomia.
A fabricante de motocicletas elétricas de alto padrão Verge Motorcycles e sua empresa derivada de motores, a Donut Lab, afirmam estar vendendo o primeiro veículo elétrico do mundo movido por uma bateria de “estado sólido” —um tipo de bateria muito badalado e prometido há anos, que, em tese, armazena mais energia do que as células convencionais, caso as empresas consigam projetá-la e produzi-la em escala.
Mas a Verge e a Donut Lab não apresentaram provas nem muitos detalhes sobre suas alegações. A comprovação, dizem, virá quando os clientes começarem a receber as motocicletas elétricas de US$ 30 mil que já estão à venda e cuja entrega está prevista até o fim de março. Cientistas são céticos, e a controvérsia ilustra a longa e conturbada história de empresas que tentaram —e até agora fracassaram— em desenvolver uma tecnologia frequentemente exaltada como o santo graal das baterias.
As baterias de estado sólido são semelhantes às baterias de íon de lítio usadas hoje em celulares, laptops e carros elétricos, mas substituem o eletrólito líquido por materiais sólidos que, teoricamente, permitiriam armazenar mais energia, carregar mais rápido e durar mais, além de reduzir o risco de incêndio.
Pesquisadores, porém, têm dificuldade para desenvolver baterias de estado sólido que combinem todos esses benefícios e funcionem de forma consistente no mundo real. Mesmo que isso fosse alcançado, as empresas ainda teriam de gastar anos e bilhões de dólares para adaptar fábricas e produzir em massa células sólidas em vez das baterias com eletrólito líquido.
Montadoras globais como Toyota, Nissan e Hyundai prometem há anos lançar veículos elétricos de longo alcance com baterias de estado sólido, mas adiaram tantas vezes os prazos que isso virou piada no setor automotivo. Gigantes das baterias como Samsung, Panasonic e CATL, além de startups bem financiadas como QuantumScape e Solid Power, também trabalham na tecnologia, mirando a produção em escala nos próximos anos e publicando um fluxo constante de patentes e artigos revisados por pares.
A Donut Lab, startup finlandesa com menos de cem funcionários que anunciou sua existência há apenas 14 meses, diz ter superado os concorrentes com uma “bateria totalmente de estado sólido” que, segundo o CEO Marko Lehtimäki, armazenaria cerca do dobro de energia por quilo em relação a uma bateria típica de veículos elétricos, carregaria de zero a 100% em cinco minutos, suportaria 100 mil ciclos de recarga, perderia quase nenhuma capacidade no frio intenso de -22 °C ou no calor extremo de 100 °C, não utilizaria materiais raros ou “geopoliticamente restritos” e ainda seria mais barata do que as células de íon de lítio convencionais.
A startup já levantou quase US$ 60 milhões de investidores como Risto Siilasmaa, ex-presidente do conselho da Nokia, que hoje integra o conselho da Donut Lab.
“Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”, disse Paul Braun, professor e diretor do Laboratório de Pesquisa em Materiais da Universidade de Illinois. “Embora nenhuma lei da física pareça estar sendo violada, preciso ver muito mais dados antes de me convencer de que essa tecnologia de bateria é real.”
Kelsey Hatzell, professora associada da Universidade Princeton e chefe de um laboratório de ciência de materiais que trabalha com baterias de estado sólido, afirmou que a combinação de propriedades prometida pela Donut Lab, sem desvantagens, “soa impossível”. Ela acrescentou que, se as células pudessem ser produzidas em massa na Finlândia, como disse Lehtimäki, “isso seria chocante” para ela.
Lehtimäki se recusou a divulgar dados ou detalhes sobre a bateria, argumentando que a Donut Lab precisa proteger seus segredos industriais. Segundo ele, no entanto, fabricantes já estariam testando as baterias sob acordos de confidencialidade, e grupos externos —que ele não quis identificar— validariam as promessas nas próximas semanas.
Enquanto isso, a Verge aceita encomendas nos Estados Unidos e na Europa de uma motocicleta elétrica que parte de US$ 29.900 e promete recarregar de zero a 80% em menos de dez minutos e percorrer mais de 320 quilômetros com uma única carga graças à nova bateria de estado sólido. Trata-se de uma versão reformulada da TS Pro, cujo modelo anterior tinha a mesma autonomia e preço, mas era mais pesado e levava 35 minutos para recarregar. Uma nova versão de longo alcance começa em US$ 34.900 e promete rodar 595 quilômetros com uma carga.
Folha Mercado
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A TS Pro padrão está no mercado desde 2022. Ela detém um recorde do Guinness pela viagem mais longa já feita por uma motocicleta elétrica com uma única carga, ao percorrer 311 quilômetros em um circuito ao redor de Londres no ano passado. As melhorias prometidas na nova TS Pro são plausíveis, segundo Braun, mas não exigiriam necessariamente baterias de estado sólido.
“Pode ser difícil, mas tudo o que foi afirmado (exceto o custo) poderia ser feito com células convencionais de alto desempenho”, escreveu ele em um e-mail.
Independentemente de a Verge e a Donut Lab cumprirem ou não as promessas, cientistas e empresas continuarão estudando as baterias de estado sólido.
“Há uma necessidade real de baterias de estado sólido com alta densidade energética”, disse Hatzell. “Acho que elas vão existir um dia, e houve avanços significativos na última década.”
Ela imagina que essas baterias sejam usadas em drones voadores, robôs autônomos e outros produtos nos quais os consumidores estariam dispostos a pagar mais para concentrar o máximo de energia no menor peso possível.
Segundo Braun, motocicletas elétricas de nicho e alto desempenho também fazem sentido como uso inicial para baterias de estado sólido. Com o tempo, elas poderiam dominar o mercado de veículos elétricos de luxo, ou até o de massa, mas talvez nunca fiquem baratas ou boas o suficiente para substituir completamente as baterias de íon de lítio convencionais.
“As baterias comuns estão melhorando”, disse. “Talvez o custo das de estado sólido nunca chegue lá, e elas acabem sendo usadas apenas no segmento de mais alto desempenho.”
Lehtimäki, como muitos empreendedores do setor antes dele, insiste que a revolução das baterias de estado sólido está próxima.
“Seria simplesmente estúpido sair dizendo mentiras para o mundo inteiro quando, em questão de semanas, as pessoas vão abrir esses pacotes de baterias e escanear essas células”, afirmou em entrevista telefônica ao The Post. “Não precisamos enganar ninguém. … Tudo o que eu disse no vídeo não é exagero de nenhum tipo. É fato, e as pessoas vão ficar chocadas.”
noticia por : UOL




