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Cuiaba - MT / 6 de março de 2026 - 0:37

Vínculos de Epstein com acadêmicos revelam lado sombrio da captação de recursos universitários nos EUA

Seus prédios podem ser maravilhas arquitetônicas. As descobertas feitas em seus laboratórios podem ser fascinantes e salvar vidas. Mas as faculdades e universidades americanas estão cronicamente em busca de dinheiro, uma realidade que levou líderes acadêmicos e pesquisadores tanto à órbita de Jeffrey Epstein quanto à sua caixa de entrada.

As instituições tinham o prestígio para lhe conferir legitimidade. Epstein tinha o dinheiro para financiar projetos. Funcionou bem para alguns, até deixar de funcionar.

Epstein, que em 2019 morreu por suicídio na prisão onde estava detido sob acusações de tráfico sexual, doou dinheiro —ou simplesmente acenou com a possibilidade disso— para pessoas em diversas universidades, incluindo Harvard, MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Stanford, Bard College e Columbia.

Algumas instituições passaram anos tentando se distanciar de Epstein, doando suas contribuições e condenando seus crimes. Mas divulgações recentes de documentos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos provocaram novas recriminações e arrependimentos.

Muitos acadêmicos cujos nomes aparecem nos arquivos de Epstein afirmam que recorreram a ele apenas por causa de seu dinheiro e da possibilidade de que ele pudesse financiar orçamentos universitários e projetos de pesquisa — mesmo que suas trocas tenham ocorrido depois que Epstein se declarou culpado em 2008 por solicitar prostituição de uma menor de idade.

“Como venho dizendo há anos, o envolvimento com Jeffrey Epstein estava a serviço de uma única agenda, que era a captação de recursos para o Bard”, disse o presidente da faculdade, Leon Botstein, em comunicado.

Nicholas Christakis, professor da Universidade Yale, escreveu em um e-mail que havia encontrado Epstein apenas uma vez, “no contexto de captação de recursos para meu laboratório”.

“Nunca recebemos nenhum financiamento dele”, disse, acrescentando: “Como outros cientistas acadêmicos, sou responsável pelo apoio financeiro do meu laboratório”.

Antonio Damasio, neurocientista da Southern California University, disse em um e-mail que colegas lhe haviam falado sobre Epstein, dizendo que ele tinha interesse em ciência.

“Quando Epstein convidou a mim e minha esposa (que também é uma cientista renomada) para jantar em sua casa em Nova York com outros colegas, aceitamos e ambos comparecemos”, disse Damasio, que afirmou nunca ter recebido dinheiro de Epstein.

Os motivos de Epstein para se conectar com professores e reitores universitários nem sempre eram claros. Ele reunia celebridades e pessoas influentes em sua rede; um professor de Harvard que se beneficiou da generosidade de Epstein certa vez observou que o financista também colecionava cientistas.

Epstein raramente cumpria as contribuições multimilionárias que sugeria estar oferecendo, mas atraía pessoas e parecia atento à busca interminável da academia para pagar suas contas.

A filantropia privada há muito é parte essencial do modelo de negócios do ensino superior, e alguns reitores dizem que passam pelo menos um quarto de seu tempo captando recursos.

Grande parte do dinheiro arrecadado vai para fundos patrimoniais. Embora os dados federais mais recentes mostrem que faculdades e universidades americanas têm coletivamente mais de US$ 927 bilhões em seus fundos patrimoniais, muitos desses recursos têm restrições severas, limitando como podem ser usados e deixando a academia mais apertada financeiramente do que o número principal sugere. Essa é uma das razões pelas quais pesquisadores disputam ferozmente verbas de financiamento e outras doações.

Mas a dependência de dinheiro privado, dizem profissionais do setor, deixa as instituições vulneráveis a solicitar ou aceitar contribuições de fontes que podem ser questionáveis.

Raramente as abordagens explodem de forma tão espetacular quanto as envolvendo Epstein. (As autoridades não acusaram nenhum dos acadêmicos cujos nomes surgiram nos arquivos de irregularidades relacionadas a Epstein.)

A academia está repleta de especulações sobre os motivos de Epstein para acenar com possíveis doações.

Botstein disse em 2023 que Epstein “gostava de humilhar e acenar com possibilidades” e o havia “absolutamente enrolado”. Outros se perguntaram se ele se deleitava em conversas com algumas das mentes mais brilhantes do mundo. Muitos também acreditam que Epstein buscava usar a reputação da academia para limpar a sua própria.

Por exemplo, um professor de Harvard, cujo programa recebeu milhões de Epstein, aprovou propostas feitas pelo assessor de imprensa do financista para destacar Epstein em um site da universidade.

Em um relatório que Harvard divulgou em 2020, a universidade disse que os pedidos “pareciam fazer parte de um esforço maior para reabilitar” a imagem de Epstein. (A universidade também observou que o site da fundação de Epstein exagerava suas doações a Harvard em dezenas de milhões de dólares.)

“Ter uma dessas universidades como parte do seu portfólio filantrópico adiciona uma quantidade enorme de credibilidade, e acho que é com isso que uma universidade deveria se preocupar: um personagem questionável está me usando para encobrir um estilo de vida?”, disse Nicholas S. Zeppos, ex-reitor da Universidade Vanderbilt.

As universidades há muito debatem abordagens para o chamado dinheiro sujo. Alguns líderes acadêmicos argumentam que é melhor o dinheiro ser gasto por universidades, onde o bem público pode ser promovido, do que permanecer com fontes nefastas.

“É uma área difícil para as instituições”, disse Gene Tempel, decano fundador emérito da Escola de Filantropia da Universidade de Indiana. “Elas estão em busca de dinheiro, e o velho ditado sobre dinheiro sujo é que nunca é sujo o suficiente.”

Nem sempre estava claro o quanto os administradores sabiam sobre os contatos de Epstein com suas instituições. A maioria das políticas de diligência prévia, disseram profissionais do setor, geralmente é construída em torno da aceitação de doações, não da solicitação.

E com algumas exceções notáveis — particularmente Botstein e Larry Summers, que liderou Harvard — os contatos de Epstein com a academia aconteceram nos escalões mais baixos das universidades, em parte porque suas potenciais doações, embora grandes, geralmente não eram suficientes para merecer a atenção dos líderes dos campi.

Mesmo à parte da condenação de Epstein em 2008, James M. Langley, presidente de uma consultoria de filantropia, disse que o histórico limitado de doações do doador deveria ter levantado alertas.

“É preciso estar atento a todas as possibilidades”, disse Langley, que ocupou cargos de alto escalão nas faculdades Georgia Tech, Georgetown e na Universidade da Califórnia em San Diego. “Mas aqui está algo que se aprende com a captação de recursos: se é bom demais para ser verdade, geralmente é.”

Langley disse que, no entanto, entendia por que os professores se envolveram com Epstein.

“De repente, essa pessoa de posses está vindo até você, então de certa forma isso pode reforçar sua visão de que o sistema maior não o aprecia tanto quanto deveria”, disse Langley, que afirmou que o aparente interesse de Epstein pode ter sido “sedutor” para os pesquisadores.

Zeppos argumentou que o episódio expôs “uma vulnerabilidade no sistema”.

“Às vezes”, disse ele, “essas coisas são como casos de acidentes aéreos que poderiam ser evitados — um conjunto de circunstâncias que deveria disparar alertas para todos, mas o sistema simplesmente falha.”

noticia por : UOL

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