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Cuiaba - MT / 5 de março de 2026 - 23:24

Mulheres com lipedema têm diagnóstico tardio e dificuldade de acesso a tratamento

Apesar de o Ministério da Saúde afirmar que o SUS (Sistema Único de Saúde) oferece acompanhamento para pacientes com lipedema, mulheres —público mais afetado pela doença— relatam dificuldades para obter diagnóstico e tratamento adequados no Brasil.

A ausência de protocolos clínicos padronizados, a confusão com outras condições e a falta de uma linha de cuidado estruturada fazem com que o acesso a terapias e cirurgias seja irregular, tanto na rede pública quanto na saúde suplementar, segundo especialistas ouvidos pela Folha.

De origem genética na maioria doas casos, o lipedema é caracterizado pelo acúmulo de gordura em braços e pernas, o que causa dor, inchaço e inflamação.

Um estudo brasileiro publicado neste mês na revista Nature apresenta uma revisão científica que consolida o conhecimento atual sobre o lipedema. O artigo aponta que a doença é crônica, não tem cura e que as estratégias disponíveis, como dieta, fisioterapia e cirurgias, atuam apenas no controle dos sintomas, sem resolver definitivamente o problema.

A pesquisa também destaca limitações importantes das intervenções cirúrgicas. A cirurgia bariátrica, apesar de promover perda de peso, costuma não aliviar sintomas centrais do lipedema, como a dor. A lipoaspiração pode ser eficaz em casos mais avançados, mas está associada a riscos como infecções, sangramentos, trombose e, mais raramente, embolia gordurosa ou edema pulmonar.

Os pesquisadores alertam ainda que medicamentos amplamente utilizados para outras condições podem agravar o quadro. Diuréticos, glicocorticoides e tiazolidinedionas estão associados ao aumento da fibrose, do edema ou do ganho de peso, o que pode acelerar a progressão da doença.

Um dos autores do estudo e membro do Departamento de Lipedema da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), o endocrinologista André Faria ressalta que não existem medicamentos desenvolvidos ou comprovados cientificamente para o tratamento do lipedema.

A base do tratamento do lipedema envolve uma abordagem conservadora, com mudanças no estilo de vida a partir de orientação nutricional e prática regular de atividade física. Em casos mais avançados, pode haver indicação cirúrgica, como lipoaspiração.

Quando há lipedema associado à obesidade e a paciente não responde apenas a dieta e exercício, pode haver indicação de medicamentos para perda de peso, como Mounjaro e Ozempic. Segundo o especialista, essas drogas não tratam o lipedema em si, mas podem ajudar a aliviar parte dos sintomas ao reduzir a gordura corporal total.

Faria destaca que, no SUS, o acesso a esse tipo de abordagem é limitado e restrito a poucos centros de referência em obesidade, como hospitais universitários. Na rede privada, afirma que os planos de saúde não costumam cobrir medicamentos para obesidade nem procedimentos cirúrgicos específicos para o lipedema.

O Ministério da Saúde diz que o cuidado às pessoas com lipedema no SUS está previsto na Pnaes (Política Nacional de Atenção Especializada em Saúde) desde 2023. Segundo a pasta, o atendimento ocorre de forma integrada entre a Atenção Primária, responsável pelo diagnóstico clínico, e a Atenção Especializada, onde são realizados os procedimentos terapêuticos.

“O tratamento no SUS pode incluir acompanhamento especializado, fisioterapia, uso de terapias compressivas, drenagem linfática manual, exercícios físicos e controle do peso. Em casos específicos, podem ser indicados procedimentos cirúrgicos, como dermolipectomia e lipoaspiração”, afirma o ministério, em nota.

Até novembro de 2025, o SUS contabilizou 931 atendimentos ambulatoriais e 757 hospitalares para lipedema e linfedema no Brasil. O Ministério da Saúde não disponibilizou dados específicos apenas sobre lipedema.

“Os procedimentos até existem no SUS, mas não como tratamento de lipedema. A paciente só consegue atendimento quando o caso é enquadrado como outra doença”, afirma o cirurgião plástico Fábio Kamamoto, diretor do Instituto Lipedema Brasil.

Essa distância entre diagnóstico e tratamento aparece na trajetória da influenciadora digital Tamires dos Santos, 38. Ela conviveu por décadas com dores, inchaço e alterações progressivas nas pernas sem saber a causa. Desde a infância, tinha quadril largo e coxas volumosas, características associadas por ela e pela família a um “biotipo feminino”.

O diagnóstico de lipedema só veio em 2021, após um agravamento do quadro. Entre 2017 e 2021, Tamires enfrentou um período de depressão após um luto familiar. Nesse intervalo, ganhou peso e chegou a passar dos 200 kg. As pernas se deformaram de forma progressiva, com perda de mobilidade e dores intensas, mas ela acreditava que tudo era consequência da obesidade.

“Eu via minhas pernas mudarem, mas achava que era só o peso. Não sabia que existia uma doença ali”, relata.

Apesar de ter procurado atendimento médico ao longo da vida por dores, inchaço e dificuldade de mobilidade, os sintomas eram atribuídos apenas ao sobrepeso, sem investigação específica. O diagnóstico foi feito no SUS, mas quando o quadro já estava avançado.

“Eu não conseguia mais andar em casa, deitar ou sair na rua. Quando descobri a doença, já estava em estágio avançado, grau 4”, conta.

Pelo SUS, ela não foi encaminhada para tratamento cirúrgico. Entre 2023 e 2024, passou por duas cirurgias realizadas gratuitamente por meio da ONG Movimento Lipedema. Ao todo, foram removidos mais de 30 kg de gordura associada à doença, principalmente da região do quadril e entre as coxas.

O que é o lipedema

O lipedema é uma doença crônica, de origem predominantemente genética, que afeta quase exclusivamente mulheres. Manifesta-se pelo acúmulo anormal de gordura nas coxas, pernas e braços, sem comprometimento do tronco.

Além do aumento de volume corporal, provoca dor ao toque, inchaço, sensação de peso, nódulos sob a pele e hematomas frequentes, mesmo sem trauma. Trata-se de uma gordura inflamada, que tende a piorar progressivamente se não for tratada.

Kamamoto afirma que o desenvolvimento da doença está associado à ação de hormônios femininos, como estrogênio e progesterona, e costuma se intensificar em fases como puberdade, uso de anticoncepcionais, gestações e menopausa.

A doença é classificada em tipos e estágios. O diagnóstico é clínico e envolve a exclusão de outras condições frequentemente confundidas com o lipedema, como obesidade, linfedema e varizes. Exames de imagem, como ultrassom e cintilografia, auxiliam na diferenciação.

O estudo publicado na Nature aponta que o diagnóstico costuma ser tardio e impreciso, principalmente pela falta de treinamento específico entre profissionais de saúde e pela ausência de critérios diagnósticos padronizados.

Quem também enfrentou problemas no diagnóstico foi a auxiliar administrativa Renata Frasson, 33. Ela relata que o acesso ao tratamento para o lipedema foi marcado por uma longa trajetória de tentativas frustradas no sistema de saúde. Ao longo dos anos, buscou atendimento pelo SUS, por plano de saúde e também na rede particular, mas sem receber um diagnóstico preciso ou uma abordagem específica para a doença.

Segundo Renata, as orientações médicas se restringiam, em geral, à indicação de cirurgia bariátrica ou ao uso de diuréticos, mesmo sem a garantia de que essas medidas trariam melhora para o quadro. “Diziam que eu tinha que conviver com isso”, conta.

Renata passou a ter acesso ao tratamento conservador e ao acompanhamento especializado por meio de um projeto social, o que resultou em melhora significativa do quadro. “Hoje eu consigo fazer coisas simples que antes eu não conseguia, como sentar com a perna dobrada, subir e descer escadas de frente e voltar a fazer exercícios na academia”, afirma.

noticia por : UOL

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