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Cuiaba - MT / 12 de março de 2026 - 15:08

Guerra no Oriente Médio eleva percepção de risco para GNL no maior leilão de energia do Brasil

As turbulências no mercado de GNL (gás natural liquefeito) em decorrência da guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã aumentaram a percepção de risco para projetos de usinas termelétricas que farão uso do combustível e pretendem se viabilizar no leilão mais aguardado do setor elétrico do Brasil.

Apesar do alto grau de incerteza relacionado ao conflito, que ocorre em região vital para o suprimento mundial do insumo, analistas do setor avaliam que pré-acordos já firmados com fornecedores de GNL para ancorar projetos para o certame poderão ser impactados pelo momento do mercado, especialmente se a guerra se prolongar ou se agravar com danos a infraestruturas físicas.

O Catar, segundo maior exportador mundial de GNL, anunciou recentemente a suspensão da produção em uma de suas instalações e se declarou força maior nos embarques —dispositivo que isenta a empresa de responsabilidades por falhas no fornecimento. A Shell, maior comercializadora mundial do insumo, também declarou força maior nas cargas que compra da QatarEnergy e revende a clientes de todo o mundo.

O Brasil não é hoje um consumidor relevante de GNL, utilizando-o principalmente na geração termelétrica. Porém, o uso do combustível pode crescer nos próximos anos, a depender da contratação da próxima semana, na qual o GNL desponta como uma fonte energética importante para garantir operação mais flexível.

Grandes empresas do setor de energia, como as brasileiras Petrobras, Eneva e Edge, da Cosan, e a americana New Fortress Energy, importam o insumo de outros países, principalmente dos EUA, para seus terminais de regaseificação na costa brasileira.

Alguns investidores já vão para o leilão de capacidade com contratos vinculantes de gás, mas é possível que outros sofram no “pós-leilão”, para assinar acordos comerciais discutidos antes do início da guerra, visto que a demanda por GNL poderá aumentar em mercados mais prioritários como a Ásia, apontou Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da A&M Infra.

“A gente já viu isso acontecer muitas vezes: se você tem uma dinâmica de preço muito descolada do que é o histórico, você tende a deslocar essa oferta para quem está pagando mais. Isso pode mexer, sim, com as condições de acesso ao GNL por quem venceu o leilão”, disse.

O Brasil registrou problemas do tipo com projetos do primeiro leilão de capacidade, realizado em 2021.

A usina Portocém foi contratada no certame com base em um pré-acordo de GNL com a Shell, que posteriormente desistiu das negociações diante de uma nova realidade de mercado após a guerra da Ucrânia. O projeto de Portocém foi então comprado pela New Fortress Energy, que transferiu a construção da usina de Pecém (CE) para Barcarena (PA).

“Não dá para precisarmos o tamanho do problema que pode vir a existir, mas é fato que o leilão vai acontecer em um momento muito complexo. Se a guerra não acabar tão brevemente, você pode ter uma renegociação mais desafiadora para quem for vencedor”, avaliou Neto.

Vinícius Romano, vice-presidente da área de gás da Rystad Energy na América Latina, destaca que os supridores do leilão, que vão importar e comercializar o insumo para as termelétricas, já passaram por aprendizados após a guerra da Rússia, que deflagrou a pior crise do mercado de gás até então.

“Os supridores já vêm calibrados, espertos, entendendo propostas de flexibilidade. Eu acho que esse evento do Irã é mais um teste para as condições que eles já se prepararam.”

Ele disse que os preços do GNL na Europa passaram do nível de cerca de US$ 10 por milhão de BTU (unidade internacional de medida do gás) para até US$ 18.

Mas, na ausência de compromissos firmes, existe a possibilidade de renegociação de preços diante da alta internacional do gás, disse Romano, o que poderia afetar o custo variável das usinas e, em última instância, os consumidores.

Décio Oddone, ex-presidente da Petrobras Bolívia e ex-diretor-geral da ANP, avalia que há um risco baixo para os projetos a GNL no leilão. “Via de regra, esses contratos todos já são bem feitos para se precaver nessas situações extremas”, disse o executivo, ponderando que “em situação extrema de confusão, pode ter ruptura de oferta”.

Analistas e executivos ressaltaram a dificuldade de prever os desdobramentos do conflito para o mercado de gás, devido à incerteza sobre a duração e a extensão da guerra. Outro fator importante é o aumento da oferta de GNL pelos EUA previsto para os próximos anos, o que poderia ajudar a mitigar eventuais problemas maiores na oferta do Oriente Médio.

EXPECTATIVA PARA O LEILÃO

Marcado para a próxima semana, o leilão de capacidade busca garantir investimentos bilionários para a segurança do fornecimento de energia no Brasil, com estimativa de negociação de pelo menos 20 GW (gigawatts) em contratos para usinas novas e existentes, segundo estimativas de mercado.

Além de usinas a GNL, o certame poderá contratar projetos de gás natural conectados à malha de transporte e usinas movidas a carvão, óleo combustível e biodiesel, além de expansão de hidrelétricas.

A licitação é amplamente aguardada por vários grandes atores do mercado de gás brasileiro, como Petrobras, Eneva e Âmbar Energia, da J&F.

A Eneva já declarou publicamente planos para recontratar usinas existentes e ampliar capacidade de geração no seu hub de gás em Sergipe.

A Petrobras tem nove usinas disponíveis para recontratação no leilão, somando 2,9 GW, e poderá tentar viabilizar um novo ativo termelétrico. Em paralelo, também atuará como supridora de gás para outros projetos do leilão.

Também manifestaram interesse no leilão nos últimos anos empresas como a GNA —joint venture formada por BP, Siemens, SPIC Brasil e Prumo Logística—, New Fortress Energy e a turca Karpowership.

noticia por : UOL

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