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Cuiaba - MT / 24 de abril de 2026 - 3:34

Public Image Ltd retorna ao Brasil entre rebeldia e contemplação

Na última vinda do Public Image Ltd ao Brasil, em 1992, este mesmo jornal anunciou a apresentação num texto que dizia “as paredes vão tremer”. A frase não soa tão atual para o show que marcou o retorno da banda ao Brasil nesta quarta (8), no Cine Joia.

As paredes já não tremem tanto, e o público da banda trocou o pogo pela contemplação. O próprio PiL também se adaptou. Lydon fez uma pausa depois de uma hora de show para fumar um cigarro nos bastidores —algo que ele faria sem cerimônia no auge da seu ímpeto punk.

Mas a rebeldia ainda vive. O cigarro era, na verdade, pausa para um descanso antes do bis. É quase meio século de banda, e algumas músicas exigem mais. Foi o caso de “Rise”, sucesso que tomou o público em uníssono, e do final com “Annalisa”, “Attack” e “Chant”.

A tríade, ponto alto da apresentação, mostrou um Lyndon injuriado, entre gritos descompensados e modulações rasgadas —uma voz feita para o punk. A sequência veio logo depois de “Public Image”, que conseguiu até botar a plateia para pular e as paredes, veja só, para tremerem um pouco.

A faixa de mesmo nome da banda embala seu espírito desde sua fundação, logo após a saída conturbada de Lyndon dos Sex Pistols. Ao vivo, segue como RG do pós punk, uma criação representativa do cruzamento entre niilismo e decadentismo que o PiL incorpora desde seus princípios.

Essas primeiras décadas, de 1970 e 1980, foram o ápice criativo do grupo, e foram outras músicas dessa época que resultaram nos melhores momentos de Lydon e turma ao vivo —uma banda cuja formação também estreava no Brasil.

E, ao contrário da história do navio de Teseu, que teve todas as suas partes trocadas a ponto de ser questionado como tal, é nesse jogo das cadeiras liderado por Lydon que o PiL sempre existiu como tal.

Além do próprio Lydon, o veterano da banda no palco era o guitarrista Lu Edmonds. Os novatos no país eram os experientes Mark Roberts, baterista e ex-Massive Attack, e Scott Firth, baixista com passagens em grupos como Morcheeba.

A entrada dos músicos trouxe força e uma bem-vinda harmonia, uma liga para o grupo. Em “Corporate”, de 2015, é o duo de bateria e baixo, como uma marcha, que dá profundidade para a postura cênica de Lydon, um arauto do apocalipse que a letra proclama.

Em “Flowers of Romance”, enquanto Lydon seguia seu monólogo errático, mais uma vez a cozinha segurava o palco. Dessa vez, com ajuda de teclados, além da entrada original de uma espécie de alaúde elétrico tocado por Edmonds.

O instrumento seguiu no punho do músico em “Warrior”, e sua textura não encontrou um bom lugar no som da casa de show. Ainda assim, a faixa deu vazão ao estilo de composição e performance de Lydon –suas letras descompassadas entre crescendos densos e minimalistas.

O show não passou por nenhuma canção do último álbum do grupo, “End of World”, de 2023. Nem mesmo a faixa “Hawaii”, homenagem de Lydon a sua falecida esposa —destaque do disco irregular.

Acostumado a polêmicas, do tipo apoiar Trump e se dizer contra a anarquia que ele mesmo cantou, Lydon trouxe ao Brasil apenas a raiva de algumas canções, o pessimismo de outras e algum deboche do punk: ele fez questão de catarrar o palco no meio do show. “Não reclamem”, gritou o também conhecido Johnny Rotten (Joãozinho Podre), ao que o público riu.

noticia por : UOL

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