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Cuiaba - MT / 5 de junho de 2026 - 1:33

Na Feira do Livro, Norman Finkelstein tem mesa lotada e com segurança reforçada

A fila para ver a mesa de Norman Finkelstein na Feira do Livro nesta quinta-feira (4) foi a maior de todos os dias do evento. O cientista político americano veio ao Brasil lançar “A Indústria do Holocausto”, livro em que revê as imagens formadas sobre o genocídio do povo judeu.

O autor é filho de sobreviventes de campos de concentração nazistas e ficou conhecido por verbalizar suas discordâncias contra o Estado de Israel e a Guerra em Gaza. A jornalista da Folha Patrícia Campos Mello, que mediou a mesa, lembrou que Finkelstein foi, por muitos anos, uma voz solitária nos Estados Unidos nas críticas a Israel.

Finkelstein já falava sobre o tema antes disso se tornar algo fácil, como ele mesmo disse. “Muitas pessoas como Ana Kasparian e Hasan Piker estão fazendo fama e têm o QI combinado de um tijolo”, disse, citando personalidades da mídia americana que foram elevadas a especialistas após fazerem críticas públicas a Israel.

Para ele, o cenário político americano vive uma dicotomia: “Há e não há um problema de liberdade de expressão nos Estados Unidos atualmente”, disse.

Ao falar da realidade brasileira, ele observou como o termo antissemitismo tem sido usado para calar críticas ao Estado de Israel. “A definição de antissemitismo se refere ao ressentimento irracional sobre judeus, mas o problema agora é que muito desse ressentimento é racional.” O ódio sobre o que está acontecendo em Gaza, segundo ele, não é antissemitismo porque é justificado.

Finkelstein disse ainda que se os israelenses fossem mais críticos sobre a guerra, ela não estaria acontecendo. “O problema não é o regime, não é o governo, é toda a sociedade que enlouqueceu e todos se tornaram genocidas maníacos.”

O encontro de Finkelstein com Campos Mello lotou o auditório dentro do estádio Pacaembu e deixou dezenas de pessoas ainda na fila do lado de fora. A decisão de colocá-lo no espaço fechado foi uma das estratégias de reforço de segurança adotadas pela feira —que também colocou seguranças em ambas as entradas do palco.

Finkelstein chegou a brincar que estava “esperando o tiro”, já acostumado a viver sob ameaça por seu discurso polêmico. As manifestações, no entanto, foram mais silenciosas do que o esperado. Pela praça e na plateia podiam ser vistas pessoas trajando bandeiras da Palestina e keffiyeh, o lenço tradicional árabe.

O autor, porém, não se diz pró-Palestina: “Eu sou a favor do que é verdade e justo.”

Mais cedo, Daniel Munduruku e a chilena Daniela Catrileo se reuniram em uma mesa de xarás, como disse o escritor. Com o mediador Leão Serva, eles discutiram como suas heranças indígenas se traduzem em seus trabalhos.

Depois de 30 anos e mais de 70 livros, Munduruku lança pela primeira vez uma ficção para adultos. “Fantasmas”, segundo ele, é para as “crianças velhas, cabeçudas” que ainda precisam aprender a olhar para os indígenas de uma forma não pejorativa.

A história do colonizador, de acordo com o autor, colocou os indígenas como bárbaros, selvagens e malucos, o que resultou em um trauma geracional.

Catrileo contou que, depois de lançar “Chilco” inspirada por sua origem mapuche, passou a ouvir de várias pessoas com avós indígenas que não se reconheciam como tal. “Se sua avó é indígena, você também é. Reivindique-se.”

Quando mais novo, Munduruku tinha vergonha de ser indígena pelos estigmas associados à palavra. “Eu queria ser branco e loiro. Eu queria ser feio”, brincou ele.

Segundo o autor, as pessoas só se assustam com o atual processo de retomada indígena porque não conhecem todo o processo histórico brasileiro. “Ainda estamos aqui, sempre estivemos e queremos continuar.”

Mais tarde, o botânico italiano Stefano Mancuso falou, em sua primeira passagem pelo Brasil, sobre seu “Fitópolis”. No livro, ele faz propostas ousadas para resolver a crise climática, como substituir asfalto por árvores.

Na Feira do Livro, em conversa com Maria Guimarães, ele apontou que o principal obstáculo para essa resolução é a descrença sobre a ciência, que se tornou subjugada à opinião política. “Isso é uma loucura”, disse o italiano.

Esse é, segundo ele, o problema científico mais grave que a humanidade já enfrentou. “Quando a ciência serve para dobrar a vida média, ela é aceita. Mas quando ela chama atenção para o gás que estamos produzindo e que está aquecendo o planeta, ela deixa de funcionar.”

A quinta-feira de Feira do Livro terminou com Nei Lopes. O compositor, escritor e “otário com sorte” –como ele se define– trouxe seus dicionários para a conversa com Túlio Custódio. O autor de “Dicionário de Direitos Humanos e Afins” e “Dicionário de Africanismos nas Américas” afirmou que sua maior contribuição ao mundo é ser igual a todos.

Sambista renomado, Lopes celebrou a música popular do Brasil, de Cuba e dos Estados Unidos. Países onde, de acordo com ele, as músicas são a cara do povo, como tem que ser. “Fazer samba pensando em ser campeão de vendagem não dá certo.”

“A música importante do Brasil não é a do agronegócio”, afirmou sob palmas da plateia.

No final do encontro, Lopes mostrou que “gosta de brincar” em suas letras e cantou um trecho de sua canção “Justiça Gratuita”: “Felicidade passou no vestibular/ E agora tá ruim de aturar Mudou-se pra faculdade de direito/ E só fala com a gente de um jeito/ Cheio de preliminar.”

noticia por : UOL

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