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Cuiaba - MT / 13 de junho de 2026 - 23:56

Como é o talk show pró-Hamas que virou ponto de encontro da esquerda revolucionária

— Hamas ou Exército Zapatista de Libertação Nacional? 

— Hamas, não tem nem comparação.

— Hamas ou Hezbollah? 

— Respeito muito o Hezbollah. Mas o Hamas é um movimento de luta de resistência anticolonial que mudou a chave do mundo. 

E o diálogo acima aconteceu de verdade: quem respondeu às perguntas foi a advogada e influenciadora Susana Botár, conhecida por defender regimes autoritários e grupos políticos extremistas. A escolha veio com a naturalidade de alguém que escolhe entre café ou chá. Sem constrangimento, rodeios ou longas explicações. 

É assim, no esquema de pingue-pongue, que o jornalista Breno Altman encerra as entrevistas do programa 20 Minutos, exibido em seu canal do YouTube, o Opera Mundi

Susana ainda é um nome emergente na bolha da esquerda. Mas o 20 Minutos costuma contar com a participação de ex-presidentes, ministros, parlamentares, acadêmicos, dirigentes partidários e líderes de movimentos sociais — gente que ocupa cargos, tem voz no debate público e, principalmente, interfere em decisões. 

Para os entrevistados do programa, ou boa parte deles, o Irã é hoje a vanguarda da luta anti-imperialista mundial. A democracia e o fascismo são faces da mesma moeda, pois mantêm um “sistema de extermínio da vida humana”. E a esquerda deveria abandonar a conciliação com outros campos políticos para retomar um projeto revolucionário rumo ao socialismo. 

Máquina do tempo 

A lista de convidados famosos do 20 Minutos é extensa: Dilma Rousseff, Nicolás Maduro, Evo Morales, Miguel Díaz-Canel, Fernando Haddad, Marina Silva, José Dirceu, João Pedro Stedile, Erika Hilton, Glauber Braga, Duda Salabert, José Genoino. Não dá para negar que o talk show de Altman hoje é um dos principais fóruns do campo marxista brasileiro. 

Ainda assim, o que mais chama atenção no programa não é o currículo dos entrevistados. Nem o repertório radical deles. É a sensação de entrar numa máquina do tempo ao assistir a cada episódio. 

Enquanto o mundo discute inteligência artificial, guerra tecnológica e economia global, as conversas giram em torno de Lenin, Stalin, Mao, ditadura do proletariado, luta armada. É como se o Muro de Berlim tivesse caído na semana passada. 

Racismo e apologia ao crime 

Para quem não está ligando o nome à pessoa, Breno Altman virou notícia no ano passado quando foi denunciado pelo Ministério Público Federal por racismo contra os judeus e incitação e apologia ao crime. A ação do MPF veio após um pedido da Confederação Israelita do Brasil, que classificou como antissemitas algumas publicações do jornalista em suas redes sociais. 

Altman é um autodeclarado “judeu antissionista”. Ou seja: um judeu contrário ao sionismo, corrente política que defende a existência de Israel como Estado nacional do povo judeu. Essa posição o transformou num dos principais militantes pró-Palestina no Brasil — especialmente depois dos ataques do Hamas contra Israel em outubro de 2023. 

Ele também é filiado ao Partido dos Trabalhadores e ao longo das últimas décadas esteve por trás de vários projetos editoriais de divulgação da esquerda marxista brasileira. Com destaque para o site Opera Mundi, que cresceu durante os primeiros governos petistas com verba publicitária estatal.  

Em 2016, Breno Altman foi alvo de uma fase da Lava Jato que investigava supostos repasses de propina ao PT. Virou réu, mas acabou absolvido por Sérgio Moro no ano seguinte. 

Essa trajetória ajuda a entender a função do jornalista à frente do canal do YouTube do Opera Mundi (hoje seu principal produto, com mais de meio milhão de inscritos). Altman se coloca como um anfitrião permanente da esquerda radical brasileira — e, acima de tudo, um organizador intelectual dela. 

O lado fascista da democracia 

O resultado é um programa que funciona como uma vitrine das ideias de quem ainda aposta suas fichas no comunismo. E uma das teses mais recorrentes entre os convidados é a de que a democracia como a conhecemos não é a solução, e sim parte do problema. 

O filósofo Vladimir Safatle, por exemplo, afirmou que a democracia liberal tem um “núcleo fascista interno”. Segundo o professor da USP, a “militarização do processo de luta” pode ser necessária contra a classe burguesa. 

José Genoino, petista histórico e ex-condenado no Mensalão, defendeu a convocação de uma assembleia popular com poderes para reescrever as regras do Estado brasileiro do zero. Como inspiração, ele citou Lenin e o que chamou de “protagonismo revolucionário” da esquerda. 

Mas ninguém foi tão longe nesse sentido quanto o geógrafo Elias Jabbour, ex-consultor de Dilma no Banco dos BRICS e um dos principais propagandistas da China no Brasil. Para Jabbour, a revolução chinesa de 1949 foi “talvez a maior vitória da democracia da história humana” — porque garantiu que o país nunca mais fosse invadido pelo imperialismo burguês. 

Sim, a mesma revolução que prendeu e executou milhões de opositores, colocou um partido único no poder e, mais de 70 anos depois, mantém o país sem eleições. 

“Depende do que você chama de liberdade” 

Além da China, os entrevistados de Breno Altman costumam apontar Cuba, Venezuela e Irã como exemplos a serem seguidos. Ou, no mínimo, como experiências que devem ser compreendidas e apoiadas. O critério não é se o regime respeita seus cidadãos, mas o quanto ele enfrenta os Estados Unidos. 

Mohammad Marandi, acadêmico iraniano próximo ao governo de Teerã, justificou os protestos de 2022, quando mulheres queimaram hijabs nas ruas e o governo respondeu com violência. Segundo ele, o número de mortos divulgado pelo Ocidente foi “totalmente inventado”, as manifestantes eram “terroristas que possuíam armas” e os distúrbios foram “instigados pelos EUA e por Israel”. 

Já Juliana Baroni, atriz e diretora de documentários sobre Cuba e China, garantiu que as revoluções comunistas nos dois países “deram certo”. Mas e a falta de liberdade? “Depende do que você chama de liberdade”, disse a ex-paquita do Xou da Xuxa, casada com o empresário Eduardo Moreira, dono do canal progressista ICL Notícias

Há ainda quem bata palmas para tentativas de revolução fracassadas. Como o deputado estadual Renato Freitas (PT-PR), que expressou “respeito” pelos guerrilheiros brasileiros que roubaram, sequestraram e mataram durante o regime militar — porque, para ele, os militares “só conhecem a força das armas”. 

A Bíblia é o problema 

A religião também entra na pauta do programa. Principalmente quando é para atacar o cristianismo. 

A terapeuta Aline Câmara, ex-evangélica “convertida” ao ateísmo, definiu o Deus bíblico como “megalomaníaco” e “fascista”. Segundo ela, a Bíblia é “o grande problema” — por espalhar uma “culpa tóxica”, em que a pessoa não se sente errada pelo que faz, mas pelo que é. 

Mariane Santana, arquiteta e pesquisadora da relação entre saúde mental e produtividade, criticou a chamada “ética protestante”. Na visão de Mariane, esse pensamento ajudou a transformar o trabalho em virtude moral, enquanto o descanso passou a ser visto como pecado. 

Por fim, o historiador Mansur Peixoto afirmou que “a origem da perseguição aos judeus está no cristianismo, e não no islamismo”. Para ele, o conceito de civilização judaico-cristã é uma “invenção” que não faz sentido histórico. 

Há programas que envelhecem mal. Mas o 20 Minutos não tem esse problema, porque já nasceu velho. Ser anacrônico, no entanto, não significa ser inofensivo. 

Afinal, entre seus convidados estão políticos, intelectuais e professores influentes, empenhados em fazer a cabeça das próximas gerações da esquerda brasileira. Ou, ao menos, dos 500 mil seguidores do canal, que ao final de cada episódio também respondem a perguntas inaceitáveis, porém feitas em tom banal. Como “Hamas ou Hezbollah?”.

“Contra-hegemônico”

Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo, Breno Altman garante que o 20 Minutos foi concebido para “colocar em circulação todas as ideias que possuam alguma representatividade histórica e política, incluindo as de direita, sem preconceitos”.

Essa pluralidade, ele diz, abre espaço para o que chama de “pensamento contra-hegemônico” — ou “concepções e conceitos que são escondidos ou subestimados pela imprensa tradicional”. “No Brasil, as ideias de direita têm muito maior visibilidade que as de esquerda”, afirma.

Sobre a atuação do Hamas, tema levantado em várias edições do talk show, Altman rejeita o tratamento dado ao grupo por boa parte dos governos ocidentais. “O Hamas não é considerado uma ‘organização terrorista’ pelas Nações Unidas”, diz.

O jornalista destaca que muitos desses mesmos governos classificavam como terrorista o atual presidente da Síria, Ahmed Hussein al-Shar’a (líder de um grupo nascido de uma filial da al-Qaeda), e hoje o veem como um aliado. “Portanto, o que pensam esses governos ocidentais é irrelevante e hipócrita”, afirma.

Ele ainda minimiza as acusações contra a organização islâmica. “Os possíveis abusos cometidos pelo Hamas são insignificantes perto dos crimes de lesa-humanidade e genocídio cometidos pelo Estado de Israel”, diz Altman, que considera a questão da Palestina “a maior régua moral de nossos tempos”.

Questionado sobre sua ascensão como uma das vozes mais conhecidas do antissionismo no Brasil desde os ataques de 7 de outubro, Breno Altman recusa o rótulo de liderança do movimento. “Não faço nada diferente do que sempre fiz. Sou um militante da causa palestina desde muito jovem, como o foram meus pais e avós, judeus antissionistas desde quando viviam na Europa”, diz.

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noticia por : Gazeta do Povo

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