Anúncio

Cuiaba - MT / 17 de julho de 2026 - 5:35

Aeroporto do Campo de Marte, em SP, estima mais do que dobrar voos até 2052; ruído é impasse

Estudo de demanda contratado pela concessionária do aeroporto do Campo de Marte estima que o número de pousos e decolagens pode mais do que dobrar até 2052 com as obras de expansão do espaço, localizado em Santana, zona norte de São Paulo. A estimativa considera a operação de voos por instrumentos, que entrará em testes por volta de agosto.

Segundo o levantamento, a média diária deve crescer de 161 para 375 pousos e decolagens, incremento de 132,9% em relação a 2023. Em dia de pico, poderá alcançar 1.104 movimentos em 2052. A concessão é da PAX Aeroportos, controlada por fundo do grupo XP Inc.

Balanço do Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) já aponta crescimento, com aumento de 59.297 movimentações, em 2023, para 66.781, em 2025. A projeção é de 98.031 em 2030. O Campo de Marte foi o 12º aeroporto mais movimentado do Brasil no ano passado.

Por outro lado, vizinhos têm reclamado de ruído. A maior mobilização envolve grupo da zona oeste que reclama do fluxo de helicópteros ao MPF (Ministério Público Federal). O órgão pediu esclarecimentos ao governo em março.

A implantação do chamado IFR (regras de voo por instrumento) é uma das exigências da concessão, cujo resultado foi anunciado em 2022. A mudança ajudará a viabilizar voos comerciais.

Especialista em aviação ouvido pela reportagem defende a expansão diante da saturação dos demais aeroportos e tendência de aumento na demanda.

Por sua vez, o mercado imobiliário é crítico porque o IFR exige pré-análise de parte dos empreendimentos em raio de 20 km e pode implicar restrições de altura, como revelou a Folha.

A concessionária do aeroporto de Congonhas também tem manifestado preocupação. A Aena propôs sincronização das operações, porque a aproximação de voo em um aeródromo tende a inviabilizar a chegada no outro.

Em nota, aponta que colabora com solução técnica que “permita o crescimento sustentável e seguro do espaço aéreo, sem prejudicar o atendimento à demanda da aviação comercial”.

O Ministério dos Portos e Aeroportos defende que o IFR trará maior segurança e reduzirá cancelamentos ligados à baixa visibilidade. Ainda salienta que a concessão passou por consulta e audiência públicas.

Transição será paulatina

A operação por instrumentos será adotada após a PAX cumprir todos os pré-requisitos. Havia algumas pendências na última inspeção, porém, em maio.

A transição será paulatina, com seis meses de testes e até quatro operações com IFR por hora. Será feita uma avaliação posterior, para possíveis ajustes.

A concessão é de 30 anos, podendo ser prorrogada por mais cinco anos. Inclui ainda o aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. A estimativa é de investimentos de R$ 1,7 bilhão, entre reformas, modernização, manutenção e contrapartidas.

Até 2052, deve aumentar especialmente a movimentação de jatos, turboélices e mais aeronaves leves, que passarão a 63% do total, ante 37% de helicópteros. Hoje, a divisão é meio a meio.

Por ora, não há anúncios sobre voos comerciais. Em Jacarepaguá, a Azul Conecta implementou viagens regionais a São Paulo e Minas Gerais após a concessão, com aeronaves para até nove passageiros.

Há, ainda, um acordo da concessionária com operadora privada para eventual funcionamento de vertiporto. Esse tipo de espaço seria voltado a aeronaves elétricas (popularmente chamadas de “carros voadores”), uma tendência de mobilidade que tem atraído atenção no setor.

O engenheiro aeronáutico Adalberto Febeliano defende as mudanças diante da saturação dos demais aeroportos de São Paulo e aumento na demanda. Para ele, o Campo de Marte deve absorver tanto o táxi aéreo e a aviação executiva de Congonhas quanto voos comerciais curtos com até 120 passageiros. “É uma necessidade premente. Está faltando aeroporto em São Paulo.”

Impacto sonoro

A PAX identificou que maior número de imóveis será impactado por barulho médio acima de 65 decibéis com a expansão de voos. O número deve subir de 67 para 120 até 2052.

O Regulamento Brasileiro de Aviação Civil considera, contudo, que média de 65 decibéis não é compatível com áreas residenciais quando moradia não tem tratamento acústico. Além disso, a OMS (Organização Mundial de Saúde) aponta que exposição média a ruído de aeronaves não deve ultrapassar 45 decibéis.

A concessionária apontou em reuniões recentes que pretende restringir voos após as 22h (não mais até as 23h) como medida de mitigação. Além disso, afirmou que medição em sete imóveis indicou exposição na média permitida.

Presidente da Associação de Amigos da Braz Leme, o advogado Antoin Abou Khalil tem percebido aumento de ruído, e espera que maior mobilização ocorra quando incremento for mais expressivo. Também se preocupa com a segurança das operações, embora a ampliação envolva medidas contra acidentes.

Problemática semelhante tem sido discutida no Rio, com o aumento de voos em Jacarepaguá, próximo da Barra da Tijuca.

Em nota, a PAX respondeu que as curvas de ruído não estão projetadas sobre a Lapa. Também disse monitorar continuamente níveis de ruído no entorno do aeroporto e realizar reuniões com a comunidade e autoridades.

Prédios precisam de pré-análise

Com o IFR, o Campo de Marte passa a exigir pré-análise para projetos de novas construções com altitude acima de 827,49 metros se a até 20 km. Essa distância é determinada por norma federal, voltada a garantir mudanças de rota e medidas de segurança.

Como o aeroporto fica mais baixo do que Congonhas, a autorização é necessária em grande parte da cidade e municípios da região metropolitana. O Decea tem dito que a maioria dos empreendimentos será aprovada na pré-análise, enquanto número menor precisará de ajustes para não se tornar “obstáculo” à navegação aérea.

As maiores restrições abrangem raio de 3,5 km do Campo de Marte, onde a análise prévia é para projetos a partir de 767,49 metros de altitude. Mesmo assim, há alternativas, como a implantação na “sombra” de edifício existente.

A nova regra passou a ser considerada em dezembro, segundo o Decea. Levantamento feito por empresa contratada pela PAX indicou ao menos 14,5 mil prédios, pontes e outros “obstáculos” existentes. Não serão feitas demolições.

Em nota, a concessionária reforçou que o processo de análise é feito pela Aeronáutica. Também destacou manter diálogo permanente e que “confia na construção de solução conjunta”.

O Ministério dos Portos e Aeroportos afirmou que a transição para IFR exige monitoramento dos arredores, mas que análise considerará possíveis ajustes nos projetos. “Dessa forma, compatibilizam-se a segurança das operações aéreas com a dinâmica do desenvolvimento urbano”, completou.

noticia por : UOL

LEIA MAIS