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Cuiaba - MT / 3 de agosto de 2026 - 14:47

Como a crise migratória da Espanha gerou uma tempestade política — e foi alimentada pelas redes sociais


Militares escoltaram migrantes em Ceuta após as recentes travessias em massa de migrantes vindos de Marrocos
REUTERS
A maioria das dezenas de milhares de migrantes que entraram a nado no enclave espanhol de Ceuta na semana passada já voltou ao Marrocos, escoltados até a fronteira por soldados e policiais espanhóis.
Mas a extraordinária onda de chegadas deixou pelo menos 72 mortos, cujos corpos foram retirados do mar onde flutuavam ao lado de boias abandonadas.
Os acontecimentos da semana passada também abalaram a Europa politicamente, expondo mais uma vez as divisões sobre a questão da migração, que é muito sensível no continente.
E deixaram no ar dúvidas sobre o que teria desencadeado esse fluxo repentino: se foram postagens nas redes sociais prometendo um caminho fácil para a Europa que simplesmente viralizaram ou se foi algo premeditado.
Vídeos mostram imigrantes do Marrocos chegando a nado em Ceuta, cidade da Espanha
A política
Seja qual for a causa, o primeiro-ministro da Espanha está irritado com a resposta de outros países da região.
Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), criticou alguns membros da União Europeia por “atacarem” a Espanha nesta crise, fazendo politicagem em vez de demonstrar apoio.
Ele se referia à Itália, acima de tudo.
O partido de direita radical Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália), da primeira-ministra Giorgia Meloni, não perdeu tempo em publicar imagens de migrantes correndo pelas ruas de Ceuta.
“Este é o modelo Sanchez que a esquerda italiana tanto aprecia”, anunciava uma legenda do vídeo.
Meloni anunciou a suspensão do acordo de Schengen entre a Itália e a Espanha, que permite a livre circulação de pessoas, alegando uma ameaça à segurança.
A medida enfureceu o governo em Madri.
Na visão da Espanha, a crise foi controlada e Ceuta não faz parte do espaço Schengen, portanto os migrantes marroquinos não teriam como avançar à Europa continental sem serem contidos antes.
Meloni sabe disso. Mas ela enfrenta eleições no próximo ano, com sua coalizão perdendo terreno para um partido novo e fortemente anti-imigração. Esta era uma oportunidade para demonstrar força e recuperar votos, e ela a aproveitou.
Espanha expulsa imigrantes de Ceuta e instala barreira no mar para evitar novas chegadas
Espanha branda demais?
A Itália não é o único país que vê a Espanha como leniente em relação à imigração.
O pedido de Meloni para uma reunião urgente de ministros do Interior da União Europeia, a ser realizada na terça-feira (4), foi assinado por quase duas dezenas de chefes de Estado do bloco, que pedem a eliminação de todas as políticas que sejam “fatores de atração” para a Europa.
Entre essas políticas está a controversa medida da Espanha de permitir que centenas de milhares de imigrantes indocumentados solicitem autorizações de residência e de trabalho e “regularizem” sua situação.
O governo espanhol é pragmático: a Espanha está envelhecendo e precisa de trabalhadores.
Mas aqueles que invadiram as praias de Ceuta na semana passada não estavam pensando nessa política, que já não está mais em vigor.
O próprio Sánchez afirma que o motivo real da chegada dos imigrantes seria uma decisão recente do Supremo Tribunal de Justiça da Espanha. Pela decisão, aqueles que entram pelo mar não podem ser repelidos imediatamente.
O primeiro-ministro argumenta que essa informação foi deturpada por traficantes de pessoas para prometer um caminho fácil para a Europa. Mas a multidão que se dirigia para Ceuta não precisou pagar contrabandistas, pois a maioria era marroquina e a rota é bem conhecida.
A mensagem sobre a decisão da Justiça espanhola se espalhou pela internet.
Migrantes mostraram a repórteres publicações em redes sociais com pessoas gritando “A Espanha está aberta”.
Diversos relatos que verificamos mostram jovens em trajes de mergulho e nadadeiras ou já nadando, além de fotos tiradas já em Ceuta. Algumas das contas online estão ativas há apenas algumas semanas. Várias têm dezenas de milhares de curtidas.
Mas todas as promessas nas postagens eram falsas.
As multidões que chegaram a beijar a costa em Ceuta com alegria não encontraram nada. Sem comida nem abrigo, e sem como chegar à Europa continental, a maioria rapidamente retornou.
Espanha anunciou que 25 mil imigrantes já retornaram de Ceuta para o Marrocos
Afinal, o que aconteceu?
Será que os migrantes foram usados politicamente, como aconteceu há alguns anos em Belarus, por exemplo? Se sim, quem estaria por trás disso?
Por enquanto, só estamos percebendo quem foram os beneficiados com tudo isso.
A direita global está “transbordando de felicidade”, como escreveu a jornalista Andrea Rizzi no jornal espanhol El País.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, — que está irritado com a Espanha por se opor à sua guerra contra o Irã — usou palavras como “catástrofe” e “invasão”. Assim como Meloni, ele tem eleições se aproximando.
A Rússia também está comemorando — já que adora o caos e a divisão na Europa. Qualquer coisa para enfraquecer os aliados da Ucrânia.
Quanto a Marrocos, o país culpa “organizações criminosas”. Mas seus guardas de fronteira certamente viram as multidões se formando.
A última vez que algo semelhante aconteceu, embora em menor escala, foi quando Espanha e Marrocos entraram em conflito por causa do Saara Ocidental, uma antiga colônia.
Há novas tensões no ar neste momento.
Sánchez nega veementemente que o Marrocos tenha sido culpado pelo ocorrido, dizendo que o governo marroquino é “um bom aliado”.
Mas seus críticos dizem que ele está apenas apaziguando os ânimos e que ele deveria ser mais agressivo.
Espanha instala barreira inflável no mar para impedir mais chegadas a Ceuta
Resultados
Por enquanto, a Espanha está empenhada em proteger Ceuta contra novos incidentes.
O governo está estendendo a cerca da fronteira até o mar, fixando longas fileiras de boias laranjas no cais, que serão patrulhadas por navios para impedir que pessoas cheguem a nado.
Na sua reunião, os ministros do Interior da União Europeia devem discutir o reforço das fronteiras externas, o que dará impulso à direita populista.
Viajantes da Espanha para a Itália estão sujeitos a verificações aleatórias de documentos pela polícia durante algumas semanas.
Portanto, nenhuma grande mudança.
Com exceção das dezenas de jovens que partiram para o mar, perseguindo uma visão que viram online, e que agora estão sendo enviados de volta para Marrocos em caixões.
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Fonte: G1

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