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Cuiaba - MT / 8 de agosto de 2026 - 6:05

Graciliano Ramos, com nova biografia, desejou a 'morte do capitalismo' em perfil

O seguinte autorretrato de Graciliano Ramos foi feito a pedido do jornalista João Condé, titular durante anos da lendária coluna “Arquivos Implacáveis”.

Quando esse perfil foi publicado, em 1948, a coluna estava abrigada no suplemento Letras e Artes, do jornal A Manhã, do Rio de Janeiro —depois passaria a ser publicada na revista O Cruzeiro.

Graciliano tinha então 55 anos —pois o jornal com a coluna saiu em agosto, e ele é de outubro de 1892—, mas, ao ser publicada mais tarde em livro, ficou consagrado o título “Autorretrato aos 56 anos”.

Em 2014, o perfil saiu no livro “Conversas”, organizado por Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Agora, ganhou um capítulo na nova biografia do autor, “Graciliano Ramos: Vida e Obra”, de Wander Melo Miranda.

Esse tipo de questionário com escritores e outras personalidades era comum na imprensa em meados do século passado. Em 1951, três anos depois do autorretrato a pedido de João Condé, Graciliano participaria de jogo semelhante a pedido do colunista Tavares de Miranda, na Folha da Manhã, precursora da Folha.

Sob o título “Traços de Identidade”, o questionário tem tópicos parecidos com os dos “Arquivos Implacáveis”, mas traz vários outros. Exemplos: “Gosta e come pimenta como se fosse salada”; “Não tem tempo para ir ao teatro e, por isso, não tem opinião formada sobre o teatro contemporâneo”; “Não tem preferência pela noite ou pelo dia. Vive”; “Gosta de frio”; “Não entende de poesia, por isso não tem poeta preferido”; “Sobre o modernismo, disse: ‘o modernismo nunca me interessou'”.

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.

Casado duas vezes, tem sete filhos¹.

Altura: 1,75.

Sapato: nº 41.

Colarinho: nº 39.

Prefere não andar.

Não gosta de vizinhos.

Detesta rádio, telefone e campainhas.

Tem horror às pessoas que falam alto.

Usa óculos. Meio calvo.

Não tem preferência por nenhuma comida.

Não gosta de frutas nem de doces.

Indiferente à música.

Sua leitura predileta: a Bíblia.

Escreveu “Caetés” com 34 anos de idade.

Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.

Gosta de beber aguardente.

É ateu.

Indiferente à Academia².

Odeia a burguesia. Adora crianças.

Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

Gosta de palavrões escritos e falados.

Deseja a morte do capitalismo.³

Escreveu seus livros pela manhã.

Fuma cigarros Selma (três maços por dia).

É inspetor de ensino, trabalha no Correio da Manhã.

Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.4

Só tem cinco ternos de roupa, estragados.

Refaz seus romances várias vezes.

Esteve preso duas vezes.

É‑lhe indiferente estar preso ou solto.

Gasta em excesso.5

Escreve à mão.

Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.6

Tem poucas dívidas.

Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.

Espera morrer com 57 anos.7


¹ Na verdade teve oito filhos.

² Na versão publicada em 2014 em “Conversas”, está: “Indiferente às Academias”, no plural.

³ Na versão publicada em 2014 em “Conversas”, está: “Seu maior desejo: a morte do capitalismo”.

4 Na versão publicada em 2014 em “Conversas”, está: “Apesar de o acharem pessimista, discorda disto”.

5 Este tópico não aparece na versão publicada agora, mas consta na de 2014.

6 Os dois primeiros foram amizades feitas na prisão; o terceiro, o escritor, autor de “Menino de Engenho”; o último é o editor José Olympio Pereira Filho.

7 Errou por três anos, morreu aos 60.

noticia por : UOL

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