A perspectiva de um El Niño entre os mais fortes registrados desde 1950 já mexe com a indústria brasileira de climatização.
Fabricantes reforçaram estoques, varejistas anteciparam encomendas e empresas ampliaram o planejamento de produção para atender a uma demanda que pode disparar no verão. O setor, porém, evita previsões mais otimistas diante dos juros elevados e do endividamento das famílias, que reduzem o consumo de bens duráveis.
O departamento de economia da Abrava, que representa os setores de aquecimento, ventilação, ar-condicionado e refrigeração no Brasil, afirma que o setor faturou R$ 50,15 bilhões em 2025 e projeta a movimentação de R$ 55,62 bilhões neste ano, alta de 10%.
O destaque da produção nacional vai para aparelhos de ar-condicionado do tipo split, que quase dobrou em dois anos, passando de 3,816 milhões de unidades em 2023 para 6,385 milhões em 2025.
Apesar desse avanço, as empresas mantêm estoques elevados enquanto aguardam os efeitos do El Niño sobre o consumo. Para a Abrava, o fenômeno climático representa uma oportunidade para o setor, mas a conversão dessa demanda em vendas dependerá do cenário econômico.
“A elevação das temperaturas trará, de fato, um impacto positivo para o setor, estimulando a procura por equipamentos de climatização e refrigeração. No entanto, outros fatores pesam negativamente, como o maior endividamento das famílias, já refletido na desaceleração do comércio, o que prejudica a demanda por bens duráveis, principalmente aparelhos de ar-condicionado”, afirma Toríbio Rolon, diretor de economia da Abrava.
A entidade avalia que, embora as expectativas das empresas tenham melhorado no segundo trimestre, o ambiente segue desafiador. O faturamento do setor recuou 0,5% na comparação anual, enquanto os custos dos insumos cresceram quase 20%. Os novos pedidos aumentaram, mas ainda são insuficientes para dissipar as incertezas provocadas pela desaceleração da economia.
Para o setor, a Selic em 14% ao ano segue sendo um dos principais entraves para o crescimento das empresas, já que os juros elevados encarecem o crédito, reduzem a capacidade de investimento e aumentam o risco de inadimplência de clientes e fornecedores, levando as companhias a adotar critérios mais rigorosos na concessão de crédito comercial.
A indústria também monitora a capacidade de abastecimento. Dados da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) mostram que a produção acumulada de aparelhos até maio caiu 42% em relação ao mesmo período do ano anterior, sinalizando que os fabricantes trabalham com uma expectativa de crescimento mais moderada do que a observada durante o último El Niño.
Na Elgin, o planejamento para o segundo semestre foi mantido, mas a empresa afirma ter reforçado produção, abastecimento e logística para evitar os gargalos registrados durante as ondas de calor dos últimos anos.
“As ondas de calor aumentaram significativamente a procura por equipamentos de climatização, especialmente pelos modelos inverter. Caso as previsões climáticas se confirmem, esperamos um mercado aquecido”, afirma Anderson Bruno, vice-presidente comercial da companhia.
Segundo ele, a empresa não pretende reajustar preços apenas motivada pelo aumento da demanda. Eventuais altas, diz, dependerão da evolução dos custos de matérias-primas, como cobre e alumínio, e de fatores logísticos, como uma eventual seca dos rios amazônicos, que pode dificultar o escoamento da produção instalada em Manaus.
Folha Mercado
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Enquanto fabricantes se preparam para atender a demanda, o consumidor final parece lembrar das prateleiras esvaziadas durante as ondas de calor dos últimos anos. Segundo Felipe Colombo, gerente-executivo de compras e importação da plataforma brasileira de ecommerce Webcontinental, parte dos clientes passou a antecipar a compra para evitar falta de produtos e prazos maiores de entrega caso o calor se intensifique no fim do ano.
“Muitos consumidores continuam aproveitando as promoções da baixa temporada para garantir seus equipamentos pelos melhores preços, evitando os reajustes típicos da alta demanda do verão. Ainda existe, porém, uma parcela significativa que prefere esperar a chegada das temperaturas mais elevadas para realizar a compra”, afirma Colombo.
Se o ar-condicionado depende mais da renda e do crédito, os ventiladores aparecem como alternativa para consumidores que buscam aliviar o calor com menor investimento. De acordo com levantamento da consultoria internacional Mordor Intelligence, o mercado global de ventiladores e sopradores deve crescer entre 2026 e 2031, impulsionado por temperaturas mais altas e maior busca por conforto térmico.
Segundo Marcelo Perin, diretor comercial da Mallory, grandes redes varejistas já começaram a antecipar encomendas para evitar desabastecimento durante o verão.
“Os varejistas já estão antecipando as encomendas de ventiladores. A companhia projeta crescimento superior a 30% nas vendas em 2026 e já iniciou entregas para grandes redes. Em períodos de calor intenso, como os provocados pelo El Niño, deixar a compra para a última hora pode significar rupturas e perdas de vendas, como já aconteceu em 2024 e no início de 2025.”
COMO ESCOLHER UM AR-CONDICIONADO E EVITAR SUSTOS NA CONTA DE LUZ
Quem pretende comprar um ar-condicionado antes da chegada do verão deve olhar além do preço. Especialistas afirmam que a escolha do modelo, a instalação e a forma de uso podem representar uma diferença significativa no consumo de energia e na vida útil do equipamento.
- ESCOLHA A CAPACIDADE CORRETA
Segundo Romenig Magalhães, supervisor de pesquisa e desenvolvimento da Gree do Brasil, o primeiro passo é dimensionar o aparelho de acordo com o tamanho do ambiente e sua carga térmica. Um equipamento com potência inferior à necessária trabalha continuamente para atingir a temperatura desejada, aumentando o consumo de energia. Já um aparelho superdimensionado custa mais e pode operar de forma ineficiente.
Segundo fabricantes, a maior parte da demanda atual vem da substituição de aparelhos convencionais por modelos inverter. Esses modelos são mais eficientes, pois ajustam a velocidade do compressor continuamente, evitando picos de energia e gerando uma economia de até 70% na conta de luz ao longo do ano.
- OBSERVE A EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
Além da tecnologia inverter, vale verificar a classificação do Inmetro. Equipamentos mais eficientes podem custar mais na compra, mas tendem a reduzir a despesa com eletricidade ao longo dos anos.
Os especialistas orientam procurar aparelhos com selo Classe A (IDR-S mínimo de 7,00) e utilizem o fluido ecológico R-32, que é mais eficiente e menos agressivo ao meio ambiente.
- NÃO PROGRAME TEMPERATURAS MUITO BAIXAS
De acordo com Romenig Magalhães, supervisor de pesquisa e desenvolvimento da Gree do Brasil, para a maioria das pessoas a faixa entre 23°C e 25°C oferece o melhor equilíbrio entre conforto e economia.
Regular o aparelho para 18°C ou 19°C faz o compressor trabalhar por mais tempo —ou em potência mais elevada, no caso dos modelos inverter— elevando o consumo, principalmente nos dias mais quentes.
- A INSTALAÇÃO FAZ DIFERENÇA
Uma instalação inadequada pode comprometer o desempenho do equipamento desde o primeiro dia.
Problemas como tubulação fora das especificações, ausência do procedimento de vácuo, vazamentos de fluido refrigerante ou carga incorreta de gás reduzem a capacidade de refrigeração, aumentam o consumo de energia, diminuem a vida útil do compressor e podem provocar perda da garantia.
A recomendação é contratar empresas ou profissionais experientes, exigir nota fiscal e garantia do serviço e verificar se serão seguidas as especificações do fabricante.
QUANTO CUSTA USAR O AR-CONDICIONADO TODO DIA
Uma simulação feita pela Gree Electric Appliances indica que um ar-condicionado split residencial eficiente, com consumo anual de 362,6 kWh, funcionando oito horas por dia em um ambiente com temperatura externa média de 35°C e regulado para 27°C, gera um custo aproximado de R$ 44 por mês.
Segundo a empresa de soluções de climatização e eletrodomésticos, a estimativa considera condições específicas de operação. Na prática, o valor varia conforme a potência do aparelho, a tarifa de energia, o isolamento do ambiente, a temperatura externa e o tempo efetivo de uso.
Para quem busca economia imediata, a dica é optar por modelos de coluna ou parede com controle remoto e múltiplas pás, que oferecem praticidade e baixo ruído.
noticia por : UOL



