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Cuiaba - MT / 17 de outubro de 2026 - 15:45

Prostituta finge morrer em peça que questiona o papel da mulher na sociedade

Prestes a morrer, uma ex-prostituta tenta casar com o parceiro, um burguês egoísta e mulherengo. Tudo não passa de um plano para roubar o sobrenome do ricaço e garantir a estabilidade de seus três filhos. É dessa farsa, que revê o papel de homens e mulheres, que parte “Filumena Marturano”, peça mais célebre de Eduardo De Filippo.

Lembrado por reunir dramas sociais e comédia popular, o dramaturgo atrai o Tapa há anos, mas essa é a primeira vez que a trupe brasileira monta o italiano. No palco do Teatro Sesi, na avenida Paulista, a figura arisca ganha vida na pele de Sandra Corveloni, sob direção de Eduardo Tolentino de Araújo, diretor do grupo cujo repertório vai de William Shakespeare a Nelson Rodrigues.

“Filumena não foi uma feminista que queimou sutiãs, mas ela segura o tranco que é ser mulher, como muitas no Brasil”, afirma Tolentino, que foi a Nova York e a Veneza para ver versões da peça, sobre a atualidade da obra. “Ela resolve seus problemas sem levantar uma bandeira, mas dialoga com o que estamos vivendo. É uma mulher do povo, expandindo questões por vezes restritas a intelectuais.”

No palco, a protagonista desafia todos, exceto pela empregada vivida por Maria do Carmo Soares, a maior defensora de seu jeito genioso. Ela provoca o criado interpretado por Walter Breda, que encoraja caprichos do chefe, papel de André Garolli, desafia a amante que entra às escondidas e força Domênico, o namorado, a se aproximar das crias —que podem ou não ter o sangue dele.

Em dado momento, quando joga verdades desconfortantes sobre o parceiro, a personagem causa um tipo de curto-circuito, já que os demais parecem travar e andar para trás com os seus corpos. No mais, ela fala diretamente com o público, via monólogos e canções napolitanas, típicas da cultura popular, e define as regras do cenário, lar burguês que ignorava a guerra próxima do fim em 1946, quando o texto foi escrito.

“Me parece que Di Filippo está falando da ‘mãe Itália’ e defendendo que todos os seus filhos são iguais”, diz Garolli, cujo personagem tenta se identificar com os possíveis descendentes, apesar das diferenças sociais. “Ele se aproveita do fim do conflito para denunciar uma nação desunida.”

Embora a crítica tenha apelidado De Filippo de “Shakespeare italiano”, sua influência foi diluída no Brasil, onde o autor proibiu a circulação de suas obras durante a ditadura. Além disso, ele penava para receber o repasse de direitos em regiões fora da Europa.

Para Sandra Corveloni, que é nora de uma “mama” tradicional, no entanto, a peça não está nada atrasada. “Hoje se fala muito da mulher que faz dupla, até tripla jornada, e ainda é responsável por cuidar dos filhos. Mas é evidente que esses debates seguem restritos a uma bolha.”

Maria do Carmo Soares, por sua vez, cita uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas em 2024 —segundo os dados, mais da metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. “Mesmo analfabeta, Filumena traz um discurso afetivo e luta para que os filhos tenham identidade”, diz ela.

Em certas cenas, ações de sua personagem e de Filumena se sobrepõem —ora reforçando estereótipos, ora ilustrando uma resiliência que passa por gerações. É uma dinâmica parecida com aquela entre Domênico e seu servo, por vezes um tipo de duplo, mais velho, do ricaço mulherengo.

São todos cúmplices dessa família à beira do colapso, como diz Walter Breda, que já foi premiado por uma versão de “A Arte da Comédia“, peça de De Filippo que vê o descaso de autoridades pela cultura. “Não sei se De Filippo pensou em todas essas nuances, mas todos os elementos estão postos, para que cada um interprete à sua maneira.”

noticia por : UOL

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