O governo alemão quer incentivar o investimento privado no TFFF, o fundo de florestas lançado oficialmente pelo Brasil durante a COP30. O país europeu anunciou € 1 bilhão de euros para a iniciativa na última quarta-feira (21) e espera que o valor “seja um catalisador para mais financiamento privado” e “contribuição fundamental para a abordagem inovadora do TFFF”.
Segundo o Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento do país, “o mecanismo exato de contribuição ainda está sendo avaliado pelo governo”. A explicação dada à Folha contrasta com a assertiva no meio da semana de Carsten Schneider, ministro do Meio Ambiente, que descreveu o aporte como “subvenção, não investimento”.
Isso significa que a Alemanha está colocando recursos no fundo sem expectativa de retorno, como uma doação, o que progressivamente aumentaria a participação alemã no fundo. “É particularmente importante que 20% dos recursos sejam destinados diretamente às populações indígenas que vivem na floresta e dela dependem”, disse Carsten em Belém.
A proposta inicial do governo brasileiro era levantar US$ 25 bilhões com países, valor que alavancaria outros US$ 100 bilhões de investidores privados. A aplicação dos recursos em papéis de mercado, notadamente em título de países em desenvolvimento, geraria rendimentos para remunerar os investidores e também os países que preservarem suas florestas.
Cada hectare de vegetação preservada renderá US$ 4 para a nação envolvida, sendo um quinto dos recursos direcionados às comunidades locais. A fiscalização será feita por satélite, e o pagamento reduzido em caso de desmatamento ou degradação por fogo.
O Ministério da Fazenda recalibrou as expectativas antes da COP30, afirmando que apenas US$ 10 bilhões seriam necessários até o ano que vem para servir de capital catalítico, aquele que dá suporte ao projeto enquanto o investimento privado não entra. Em Belém, o fundo alcançou cinco patrocinadores e um total de US$ 6,7 bilhões.
A Noruega anunciou um aporte de US$ 3 bilhões, e a França, de € 500 milhões. Antes, Brasil e Indonésia se comprometeram com investimentos de US$ 1 bilhão cada um. Portugal fez um aporte de € 1 milhão para custear a administração do fundo, que será feita pelo Banco Mundial. Há ainda promessas de Holanda e China, assim como apoio de países como o Reino Unido.
Na Cúpula dos Líderes, que antecedeu a conferência na Amazônia, Friedrich Merz havia anunciado uma “contribuição significativa” ao TFFF, sem, contudo, falar em valores.
Organizações ambientais e humanitárias já haviam enviado carta ao primeiro-ministro pedindo um aporte de pelo menos US$ 2,5 bilhões ao fundo.
Alegando questões técnicas, o governo alemão evitou soltar uma cifra em plena discussão no Parlamento do país sobre o Orçamento de 2026. Porém o anúncio do aporte de € 1 bilhão acabou saindo na última quarta-feira (19), dois dias depois de Merz virar alvo de críticas no Brasil.
Um polêmico comentário do conservador sobre Belém, feito durante um discurso na Alemanha, viralizou no Brasil, provocou a reação de políticos locais e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em Berlim, oposição e ambientalistas também condenaram a indelicadeza do premiê, que comparou os dois países usando Belém como referência negativa. Merz se recusou a pedir desculpas.
A breve crise, contudo, foi enterrada neste fim de semana, quando Lula e Merz tiveram uma reunião bilateral à margem do encontro do G20, na África do Sul.
Especialistas temem que o formato de subvenção possa retirar recursos de outros projetos sociais e ambientais bancados pelos alemães no exterior. Inclusive a pasta de Cooperação Econômica e Desenvolvimento deve sofrer cortes severos, segundo o Orçamento aprovado.
Há quem espere também que a Alemanha consiga fazer mais aportes no fundo não como subvenção, mas como aplicação mesmo, a exemplo do que fizeram outros países. Por enquanto, serão € 100 milhões anuais por um período de dez anos.
noticia por : UOL


