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Cuiaba - MT / 6 de março de 2026 - 3:17

Brasileiro testemunha devastação nas Ilhas Marshall por testes atômicos

Os 53 mil habitantes das Ilhas Marshall lidam ainda hoje com sequelas deixadas pelas 67 explosões de bombas atômicas americanas que, somadas, ao longo de 20 anos, foram 7.232 vezes mais potentes, em quilotons, que a explosão em Hiroshima, em 1945.

Os testes realizados no arquipélago da Micronésia pelos Estados Unidos entre 1946 e 1958 foram como “lançar uma bomba atômica como aquela (de Hiroshima) por dia, todos os dias, durante 20 anos”, disse a representante do Escritório Regional de Direitos Humanos das Nações Unidas no Pacífico, Heike Alefsen, em comunicado publicado no último Dia Internacional contra os Testes Nucleares, em 29 de agosto.

De acordo com dois relatórios da ONU, de 2012 e 2025, sobre a situação no arquipélago, “os efeitos da radiação foram exacerbados pela quase irreversível contaminação, que levou à perda dos meios de subsistência e das terras”.

A Folha conversou com o brasileiro Diego Valadares Vasconcelos Neto, do Escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que estava em visita ao atol de Enewetak, nas Ilhas Marshall, perto de onde os EUA construíram um domo de concreto para depositar material radioativo usado nos testes.

“Esses testes têm impacto profundo e transgeracional. A contaminação ainda é muito séria”, disse Vasconcelos. “As pessoas correm o risco de absorver a radiação, que é acumulativa no corpo, e que pode resultar em câncer, em má formação e em outras consequências muito impactantes”, mesmo 68 anos após o fim das explosões.

O ápice dos testes atômicos ocorreu durante os anos da Guerra Fria (1945-1991). Enquanto os EUA usavam as Ilhas Marshall como seu principal laboratório, a URSS detonava 500 bombas atômicas em Semipalatinsk, no Cazaquistão, de 1949 a 1989.

Cinco anos após o fim da URSS, em 1996, foi proposto um novo tratado para impedir que esses testes seguissem acontecendo. O CTBT, sigla em inglês do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, teve ampla aceitação —187 países assinaram, expressando concordância política com os termos do documento, e 173 tornaram-se signatários, o que significa terem passado a assinatura inicial por aprovação no Congresso e por sanção presidencial, dando força de lei à adesão.

Embora o número de aderentes seja alto, ainda é insuficiente, pois, para entrar em vigor, o CTBT precisa da adesão de um grupo em particular —o dos 44 países que, em 1996, quando o texto foi lançado, dominavam a tecnologia nuclear, fosse para fins pacíficos ou militares. O Brasil, que faz parte desse grupo, assinou e ratificou em 1998, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Porém, seis potências nucleares apenas assinaram, sem ratificar (Rússia, EUA, China, Irã, Israel e Egito); enquanto outras três (Índia, Paquistão e Coreia do Norte) nem assinaram.

Mesmo antes de entrar em vigor, o CTBT já produziu pelo menos dois resultados: a construção de uma rede global capaz de detectar a realização de qualquer teste de bomba nuclear que envolva detonação, mesmo que subterrânea; e a diminuição da quantidade de testes realizados nas últimas décadas.

Antes da criação do CTBT, “houve mais de 2.000 testes nucleares. Mas, desde então, passados 29 anos, houve apenas dez testes nucleares no mundo. Eles praticamente cessaram. Com isso, está sendo interrompida a possibilidade de disseminação de armas nucleares”, disse à Folha, em Viena, o australiano Robert Floyd, secretário executivo do CTBTO, órgão ligado ao tratado, que é responsável pela detecção e o monitoramento de testes atômicos no mundo.

O jornalista viajou a convite da CTBTO (Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares)

noticia por : UOL

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