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Cuiaba - MT / 5 de março de 2026 - 18:45

Como é a cremação com água que a Escócia acaba de legalizar

A Escócia é o primeiro país do Reino Unido onde foi autorizada, a partir desta semana, a cremação funerária com água. O processo, conhecido como “aquamação”, é uma alternativa ao sepultamento e à própria cremação tradicional, além de ser apresentado como uma opção mais ecológica do que as anteriores.

As discussões sobre a aquamação na Escócia aumentaram a partir de 2023, quando o governo local promoveu consultas públicas para atualizar a legislação sobre a cremação. O apoio popular foi expressivo, com 84% dos consultados se mostrando favoráveis à atualização da lei de cremação, criada na Escócia em 1902.

A iniciativa é pioneira no Reino Unido, mas já é legalizada em mais da metade dos estados nos Estados Unidos — embora haja locais onde não há a oferta do serviço, apesar da liberação legal. Criada no século XIX, a técnica de cremação com água também está presente em países como Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, onde foi usada no funeral do arcebispo Desmond Tutu, em janeiro de 2022.

Como funciona a aquamação?

Na cremação tradicional, o corpo é colocado dentro de um caixão em uma câmara onde é queimado em temperaturas que podem passar dos 1 mil ºC. Na aquamação, a decomposição se dá por um processo químico chamado de hidrólise alcalina.

O corpo é colocado em um cilindro metálico numa máquina onde será cozido em alta temperatura em uma mistura de água e uma substância alcalina, como o hidróxido de potássio — composto químico muito semelhante à água sanitária. A temperatura varia entre 90 ºC e 150 ºC, mas como o cilindro fica sob muita pressão, a água não chega a ferver.

Depois de três a quatro horas, o processo que combina calor, pressão e alcalinidade dissolve todos os tecidos moles, como pele, carne e cartilagem. De acordo com os fabricantes dos equipamentos, a aquamação replica exatamente o que ocorreria com o corpo caso houvesse um sepultamento convencional.

Ao final, restam apenas os ossos, que são triturados até se tornarem um pó fino e branco, diferente das cinzas da cremação tradicional, que são naturalmente escuras. O líquido que sobra é uma solução estéril de compostos orgânicos, como sais, aminoácidos e proteínas, e é tratado antes de ser devolvido à natureza de forma segura.

Cremação com águaO líquido resultante da aquamação é tratado antes de ser devolvido à natureza. (Foto: WikiCommons)

Cremação com água é mais ecológica

Diferente da cremação tradicional, em que próteses, órteses, implantes e dispositivos médicos como marca-passos são retirados previamente para evitar o risco de explosão, na aquamação esses objetos são retirados intactos ao final do processo e — quando possível — são encaminhados para reciclagem ou descarte.

A principal justificativa para a adoção da cremação com água é o ganho ambiental em comparação com outras formas de funeral. Apesar do extremo controle ambiental sobre os crematórios, a queima dos corpos — geralmente feita à base de gás de cozinha — libera dióxido de carbono na atmosfera. Essas emissões não existem na aquamação, que ainda usa o equivalente a um sétimo da energia utilizada na cremação convencional.

O resultado de ambos os procedimentos é o mesmo: os familiares recebem uma urna contendo as cinzas, que podem ser preservadas, sepultadas ou espalhadas, de acordo com o desejo do falecido.

Existe aquamação no Brasil?

Diferentemente da Escócia, onde a cremação tradicional foi regulamentada há 124 anos, no Brasil a prática só foi legalizada em 1975, em uma modificação da lei que trata dos Registros Públicos, que é de 1973. Por isso, essa opção funerária ainda é tratada como uma novidade, segundo profissionais da área.

À Gazeta do Povo, o consultor Péricles Dourado, da Funerária San Matheus, em Brasília, disse que a cremação está longe de ser a opção mais escolhida pelas famílias. “Quando eu comecei a trabalhar nesse setor, cerca de 2% dos funerais eram feitos com a cremação. Hoje, mais de 20 anos depois, essa taxa é de cerca de 8%”, explicou.

A burocracia legal envolvendo a cremação pode ser uma das explicações por trás dessa baixa adesão. De acordo com a lei, só pode ser cremado aquele que manifestar esse desejo de forma expressa ainda em vida.

Porém, ainda que esse desejo tenha sido registrado oficialmente em um cartório, por exemplo, o Estado pode se opor à cremação. Isso pode ocorrer em um caso de morte violenta, onde haja a determinação da preservação do corpo para investigações posteriores. Somente após liberação judicial é que a vontade do falecido pode ser levada a cabo.

A lei brasileira ainda exige a assinatura de dois médicos ou de um legista no atestado de óbito para que a cremação seja liberada. Por outro lado, em casos extremos de interesse de saúde pública, como epidemias, o Estado pode exigir a cremação, independentemente da vontade expressa do falecido.

A possibilidade de que haja a cremação por água no Brasil em breve é praticamente descartada pelo consultor funerário. Segundo Dourado, seria necessária uma readequação na lei para que o procedimento possa ser liberado no país.

“Em toda a lei federal que regulamenta essa prática, a palavra ‘cremação’ aparece apenas uma vez. E ainda está vinculada à vontade do falecido de ‘ser incinerado’. Por isso, imagino que da forma como está, a lei precisa ser atualizada para permitir a aquamação”, avaliou.

Outro possível entrave para a baixa popularidade da cremação é o custo total do processo, que acaba sendo mais caro do que o sepultamento convencional por uma série de fatores, como a manutenção das máquinas e dos materiais utilizados, como o gás de cozinha. Ainda assim, ponderou Dourado, a longo prazo a cremação se mostra mais vantajosa.

“É normal que as pessoas procurem o sepultamento porque foi assim o funeral de seus pais, avós. Mas quando o corpo vai para o túmulo, há taxas de manutenção que são cobradas anualmente. A longo prazo, isso pode chegar a um valor significativo. Na cremação, a cobrança é única, e quando comparada com a de um funeral convencional, acaba sendo mais barata no decorrer do tempo”, completou.

noticia por : Gazeta do Povo

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