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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 22:32

Doença do filho leva engenheiro brasileiro a criar técnica que pode mudar cirurgias em bebês

Pesquisadores brasileiros, liderados pelo engenheiro civil Paulo Duarte, desenvolveram uma estratégia considerada revolucionária para tratar malformações cardíacas complexas em recém-nascidos.

O projeto propõe substituir três cirurgias de alto risco por apenas uma, definitiva. Utilizando bioengenharia de tecidos e uma válvula de fluxo controlável, a invenção busca reduzir custos e o sofrimento dos bebês, e será apresentada nas universidades de Harvard e MIT no fim deste mês.

Sem nenhuma ligação anterior com a Medicina, Duarte teve a ideia de reduzir o número de cirurgias cardíacas em bebês após o próprio filho, Paulinho, ter sido diagnosticado ainda na gestação com uma das cardiopatias congênitas mais graves: a Síndrome do Coração Esquerdo Hipoplásico.

Nesses casos, a metade do coração responsável por enviar o sangue arterial ao corpo não se desenvolve. Sem uma intervenção médica adequada, que envolve operar o coração do bebê logo após o nascimento para criar uma via de saída para o sangue rico em oxigênio, a chance de sobrevivência é zero.

Ao todo, Paulinho foi submetido a três procedimentos conhecidos como cirurgias de Norwood, Glenn e Fontan – a primeira quando tinha apenas quatro dias de vida, e a última aos três anos de idade. Enquanto o filho lutava pela vida, o engenheiro encontrou no sofrimento da criança o impulso para a ideia inovadora.

“Ele teve três paradas cardíacas. E eu, naquele desespero, tentava encontrar um caminho, uma desculpa para estar vivo se o meu filho não estivesse mais aqui. E a minha pergunta sempre foi: por que ele precisou passar por três cirurgias? Será que a gente não conseguiria criar uma forma de fazer apenas uma?”, disse à Gazeta do Povo.

Paulo e PaulinhoO engenheiro civil Paulo Duarte com o filho, Paulinho. (Foto: Acervo pessoal / Paulo Duarte)

Engenheiro criou enxerto artificial que “cresce” com o coração dos bebês

O engenheiro, então, buscou uma especialização na área de Bioengenharia Médica, no Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese, em São Paulo. No pós-doutorado, ele criou um enxerto artificial que, com o passar do tempo, se torna parte dos vasos sanguíneos do corpo da criança.

Em uma segunda etapa, Duarte desenvolveu uma válvula especial que, associada ao enxerto artificial que vai crescer junto com o corpo, permite que os médicos controlem o fluxo de sangue direcionado aos pulmões da criança. Com isso, essa adaptação vai ocorrer de forma gradual e integrada ao crescimento do paciente, e não mais em degraus como é hoje.

“Atualmente, a primeira cirurgia desvia parte desse fluxo, a segunda se aproxima da metade e a terceira completa o trabalho. Cada ‘pancada’ dessa sobrecarrega momentaneamente o sistema, e pode acarretar problemas. Com o nosso modelo, esse fluxo pode ser ajustado de uma maneira muito simples, ambulatorial, com a ajuda de fios que ficam sob a pele, sem a necessidade de abrir novamente o peito da criança”, explicou.

Cirurgia coraçãoNo detalhe, a válvula ajustável e o enxerto artificial (em cinza) que podem reduzir de três para uma as cirurgias cardíacas em bebês. (Foto: Acervo pessoal / Paulo Duarte)

Nova técnica de cirurgia foi validada em testes com tecnologia da Fórmula 1

A equipe de Duarte validou o conceito por meio de simulações 3D, que reproduzem com precisão o comportamento do sangue dentro do sistema circulatório. Para tanto, o engenheiro usou softwares com a mesma tecnologia utilizada pela Embraer para o desenvolvimento de aviões e pelas equipes de Fórmula 1 na criação de túneis de vento virtuais para melhorar a aerodinâmica dos carros.

Os resultados mostraram que o fluxo sanguíneo se redistribui de forma estável e previsível, sem sobrecarregar o único ventrículo funcional do coração. Menos cirurgias também significam menos tempo sob anestesia e menos dias em UTI, o que pode favorecer o desenvolvimento cerebral e motor dos bebês.

Os testes virtuais demonstraram que a válvula permite transições suaves de fluxo de sangue, e que o enxerto de bioengenharia se integra perfeitamente ao coração da criança. Não foram observados vazamentos nem rejeições significativas durante o período de monitoramento.

Após o sucesso nos modelos digitais, o projeto avançou para testes em animais. Nesta etapa, que está sendo realizada em suínos, as válvulas e os enxertos serão colocados nos corações de porcos para que o modelo seja validado “in vivo”. A escolha dos animais tem uma explicação prática, segundo o cirurgião cardíaco Alexandre Murakami.

“Além de terem uma anatomia cardíaca muito próxima da dos humanos, os porcos têm um ritmo de crescimento muito acelerado. Enquanto a transição para a fase adulta em pessoas leva vários anos, nos suínos isso é alcançado em meses, o que nos permite avaliar erros e acertos do projeto de forma muito mais rápida”, disse, em entrevista à Gazeta do Povo.

Nova técnica precisa ser liberada pela Anvisa antes de testes em humanos

Quando ficarem prontos, os resultados dos testes nos animais serão apresentados pela equipe de Duarte nas duas universidades norte-americanas. A etapa é a última antes de a pesquisa ser submetida à Anvisa para que sejam liberados os testes em humanos. Por isso, ainda não há um prazo para que a nova técnica seja aplicada em bebês que sofrem com cardiopatias congênitas graves.

Mesmo sem uma previsão de início de uso da nova técnica, o engenheiro se mostra confiante com o modelo, que tem patente registrada junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) desde setembro de 2025. Para Duarte, o objetivo maior não é ganhar prêmios, mas sim mudar a realidade das famílias de crianças cardiopatas.

“Em todo o mundo são mais de 1 milhão de crianças nascendo todos os anos com cardiopatias. Desse total, mais de 90% não recebem um tratamento adequado. Hoje o tratamento é paliativo e fragmentado, de alto custo e alto risco, mas o uso de biomateriais pode mudar essa realidade”, completou.

noticia por : Gazeta do Povo

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