Em 2023, voltei à Direção Executiva do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, e recolocar o Maio Fotografia no MIS no calendário era um dos projetos. Esse é um acontecimento durante o qual o museu todo fica dedicado a essa forma de arte. Com número variado de exposições, entre cinco e oito, mas sempre com um grande nome. Comecei, com minha equipe, a procurar projetos.
Recebo, então, um contato do meu amigo e jornalista Leão Serva, propondo uma conversa. Nesse encontro, ele trouxe algumas propostas de exposições justamente para o Maio Fotografia no MIS. Qual minha surpresa e felicidade quando ele me propõe uma exposição do mestre Sebastião Salgado e de um material nunca antes exibido. Sem nem perguntar muito mais, aceitei. A conversa seguiu e ele me explicou ser um material sobre a Revolução dos Cravos, que completaria 50 anos em 2024. Além do ineditismo do material, seria a oportunidade de o público conhecer outro lado do artista, sempre ligado às questões ambientais do país.
Começamos o trabalho e tive contato com o material. Aqui um rápido contexto histórico. Nesses intensos e transformadores anos, a Europa viu ruir sua última ditadura. Em 1974, florescia a Revolução dos Cravos. O regime salazarista chegava ao fim e, com ele, ganhavam força os movimentos de independência das colônias portuguesas —Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde. A pressão vinda dessas lutas, somada ao clamor popular, enfraqueceu Portugal econômica e politicamente e impulsionou um forte apoio internacional.
Sebastião Salgado havia se mudado para a França em 1970 e decidira dedicar-se à fotografia. Em 1974, quando do final da ditadura salazarista em Portugal, ele saiu de Paris em seu pequeno carro, com sua esposa e parceira de vida e projetos Lélia Wanick e do pequeno filho Juliano, rumo a Lisboa. Após décadas de guerras coloniais, os soldados retornavam da África e eram recebidos pela população com cravos.
E Sebastião não apenas testemunhou. Ele registrou esse importante episódio da história contemporânea de um Portugal embebido pelo clamor popular da Revolução dos Cravos e de Angola e Moçambique lutando pelas suas independências. As imagens daquele momento já revelavam seu forte traço humanista, que o distinguiria de grande parte dos fotógrafos documentais e acabaria por inseri-lo no rol dos grandes artistas mundiais que promovem fortes reflexões e impactam o mundo.
Assim, o Maio Fotografia no MIS 2024 teve a grande alegria de poder apresentar ao público a marcante exposição “50 anos da Revolução dos Cravos em Portugal”, que contou com as presenças de Lélia, que assinou a curadoria, e de Sebastião na abertura, que fez um relato longo e emocionado sobre esse seu início de carreira. Para quem me conhece, sabe o quanto conheço e valorizo a história, e essa exposição, além de falar sobre o mundo por meio dos apurados e poéticos registros fotográficos, contou ao público, através de textos, momentos importantes de países que, assim como o Brasil, guardam traços da época colonial.
Agradeço muito ao amigo Leão Serva que tornou possível dar a São Paulo essa exposição desse artista único, que marcou a arte no Brasil e no mundo de forma tão particular. Deixará saudades e um enorme legado.
noticia por : UOL




