A Irlanda do Norte não se classifica para a Copa do Mundo há 40 anos, desde o Mundial de 1986, no México. O país tem apenas quatro times totalmente profissionais.
No entanto, sem que a maioria dos torcedores ao redor do mundo saiba, a pequena região de 1,9 milhão de habitantes continua tendo um impacto desproporcional no torneio.
Uma disputa de pênaltis decidiu a final da Copa do Mundo de 2022 entre Argentina e França e pode decidir muitas partidas eliminatórias no torneio ampliado que começa nesta quinta-feira (11). O pênalti foi uma criação de William McCrum, um goleiro do Condado de Armagh, no que hoje é a Irlanda do Norte. Originalmente chamado de “chute da morte”, os pênaltis foram adotados pela primeira vez em 1891.
Ainda hoje, a Irlanda do Norte, seleção pouco expressiva no futebol, pertence a um clube de elite que define as regras do futebol mundial, o International Football Association Board (Ifab).
A Associação Irlandesa de Futebol (IFA, na sigla em inglês), que administra o esporte na Irlanda do Norte (mas não na República da Irlanda), tem assento no Ifab, ao lado da entidade dirigente do futebol, a Fifa, e das associações de futebol da Inglaterra, Escócia e País de Gales.
A IFA se orgulha de ser “uma das verdadeiras gigantes do futebol mundial”.
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Ajudar a definir as regras do jogo é “absolutamente enorme”, diz Patrick Nelson, diretor-executivo da entidade irlandesa. “É um privilégio, é uma responsabilidade, é um dever? É absolutamente tudo isso.”
O Ifab decide regras, conhecidas como Leis, como quando jogadores estão impedidos e como administrar escanteios e cobranças de falta, que se aplicam aos maiores clubes do mundo e também a times modestos como o Scaynes Hill FC, da Inglaterra, por onde Nelson já jogou.
As mudanças mais recentes, aplicáveis nesta Copa do Mundo nos Estados Unidos, no Canadá e no México, incluem ajustes no uso da tecnologia de vídeo, conhecida como VAR, e medidas para impedir a cera, incluindo dar aos jogadores substituídos apenas dez segundos para deixar o campo.
Após uma comoção no início deste ano, quando Senegal foi destituído de seu título da Copa Africana de Nações porque seus jogadores abandonaram o campo na final contra o Marrocos, o Ifab também decretou cartões vermelhos obrigatórios para jogadores que deixarem o campo em protesto. Jogadores que cobrirem a boca durante confrontos também serão expulsos.
O lugar da Irlanda do Norte no Ifab remonta à época em que toda a Irlanda fazia parte do Reino Unido.
O jogo moderno de futebol havia nascido na Inglaterra, mas pequenas diferenças nas regras pelo Reino Unido persistiram até o final do século 19.
Para codificar as regras, o Ifab foi criado em 1886 e a Fifa —fundada em 1904 por Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Espanha, Suécia e Suíça— se juntou em 1913.
Quando a Irlanda foi dividida em 1921, a Irlanda do Norte manteve a IFA e seu lugar no Ifab, enquanto a Associação de Futebol da Irlanda foi fundada no sul. A Fifa representa as outras 207 associações nacionais de futebol do mundo.
A Fifa hoje tem metade dos direitos de voto no Ifab e as associações do Reino Unido têm um voto cada uma. Decisões precisam de maioria de três quartos, ou seis votos.
Nelson —que já dirigiu o Macclesfield Town da Inglaterra e agora é membro independente do conselho de policiamento da Irlanda do Norte, além de ser o principal diplomata esportivo da região— diz que não se lembra de a região ter discordado. “Levamos nosso papel muito a sério… encontramos nosso caminho para o consenso.”
Da mesma forma, ele descarta sugestões de que nações esportivas mais bem-sucedidas ressentem a estrutura do Ifab, dizendo que “todos têm oportunidade de participar”.
Mas o status da Irlanda do Norte como realeza na definição das regras do futebol contrasta fortemente com o estado precário de muitos de seus estádios. Algumas arquibancadas têm áreas fechadas ou “sustentadas com remendos improvisados”, diz Gerard Lawlor, diretor-executivo da Liga de Futebol da Irlanda do Norte.
Lawlor argumenta que o futebol na Irlanda do Norte está “preso em uma guerra política” que fez com que o dinheiro para o esporte ficasse retido devido a atrasos no financiamento de esportes gaélicos —notadamente a reforma há muito paralisada do abandonado estádio gaélico Casement Park.
Isso custou à Irlanda do Norte a capacidade de sediar partidas da Euro 2028 da Uefa, que será disputada no Reino Unido e na Irlanda.
“Há agora uma geração que perdeu a chance de ver alguns dos melhores jogadores de futebol da Europa em seu próprio quintal. É imperdoável”, disse Lawlor.
A Irlanda do Norte tem tradição no futebol: é a terra natal de George Best, aclamado tanto por Pelé quanto por Maradona, e do lendário goleiro Pat Jennings. Uma de suas estrelas em ascensão, Conor Bradley, joga pelo Liverpool, mas atletas em clubes semiprofissionais precisam conciliar o futebol com outros empregos.
A região se classificou apenas cinco vezes para grandes competições internacionais, tanto masculinas quanto femininas. Mesmo a expansão da Copa do Mundo masculina para 48 países não foi suficiente para a vaga desta vez: perdeu nos playoffs para a Itália.
Como não sediará partidas da Euro 2028, não terá um caminho privilegiado para a classificação.
Mas Nelson não perdeu a esperança. “Somos responsáveis por fazer as pessoas quererem jogar futebol”, diz ele.
“Somos um país pequeno, mas queremos ser de classe mundial.”
noticia por : UOL
