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Cuiaba - MT / 26 de fevereiro de 2025 - 7:43

Mapa eleitoral mostra domínio da extrema direita em território da extinta Alemanha Oriental; entenda por que


Estados que ocupam o território da extinta Alemanha Oriental votaram em maioria no AfD, sigla radical que teve crescimento recorde na eleição de domingo (23) no país. Pouca tradição com imigração e índices de crescimento menores que os de estados ocidentais podem explicar a adesão. Mapa eleitoral na Alemanha
Arte/g1
Desde que o AfD, partido da extrema direita alemã, começou a ter vitórias expressivas em eleições da Alemanha, uma similaridade vem chamando a atenção em dois mapas: o que mostra estados onde a sigla extremista teve maioria de votos e o que destaca a região onde, até a queda do Muro de Berlim, situava-se a Alemanha Oriental (veja o mapa acima).
Na eleição geral que o país europeu realizou no domingo (23), não foi diferente. O AfD levou a maioria dos votos nos cinco estados que ocupam o território da extinta Alemanha Oriental (Brandenburgo, Saxônia, Saxônia-Anhalto, Turíngia e Meclemburgo).
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OV
A exceção foi Berlim.
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Já na parte ocidental do país, a União Democrática Cristã (CDU), o partido conservador alemão, levou a melhor na maioria dos estados. Nacionalmente, a sigla foi também a vencedora do pleito.
O mesmo cenário se produziu na eleição parlamentar anterior da Alemanha, em 2021, e nas eleições para o Parlamento Europeu, em abril de 2024.
O levantamento foi feito por estado e não leva em consideração bolsões dentro de cada um deles onde outros partidos tiveram maioria.
Um indício para essa similaridade é que ela reflete duas situações que mais ressoam no discurso do AfD: o anti-imigração e o de que a vida econômica dos alemães está piorando.
A região que integrava a Alemanha Oriental tem, no geral, índices de crescimento e de PIB per capita menores e o de desemprego maiores que os do trecho ocidental do país, segundo a Agência Federal de Emprego da Alemanha.
Além disso, os estados que ocupam a área oriental têm menos tradição de imigração e, portanto, tendem a ser menos abertas a estrangeiros — as maiores concentrações de imigrantes na Alemanha ficam na parte ocidental do país, que já havia incentivado a entrada de estrangeiros antes mesmo da queda do Muro de Berlim.
Eleição alemã
Composição do Parlamento alemão antes da eleição de 2025 e após o pleito.
arte/ g1
Os conservadores do União Democrática Cristã (CDU) venceram no domingo (23) a eleição da Alemanha, que deu uma guinada à direita com uma derrota histórica do Partido Social-Democrata, do atual primeiro-ministro Olaf Scholz, e um crescimento recorde da extrema direita.
Veja, abaixo, o resultado, e como era e como ficou o Parlamento:
SPD — 120 cadeiras; 86 a menos que em 2021
CDU — 208 cadeiras; 11 a mais que em 2021
AfD — 152 cadeiras; 69 a mais que em 2021
Partido Verde — 85 cadeiras; 33 a menos que em 2021
A Esquerda — 64 cadeiras; 25 a mais que em 2021
O resultado oficial confirmou também o que indicavam as pesquisas de boca de urna e de intenção de voto. De acordo com a agência eleitoral do governo alemão, a porcentagem de votos foi a seguinte:
Friedrich Merz, da UCD, de oposição ao atual governo, teve 28,5% dos votos.
Em segundo lugar, o AfD levou cerca de 20,5% dos votos, percentual previsto anteriormente.
O PSD, de Olaf Scholz, apareceu na terceira posição, com 16,5%.
O Partido Verde teve 11,8% dos votos e ficou em quarto lugar, também conforme previsto.
Em quinto lugar, o bloco A Esquerda obteve 8,7% dos votos.
O resultado refletiu também o colapso do governo de Scholz, no fim do ano passado (leia mais abaixo), o que levou os alemães em peso às urnas: também segundo a agência eleitoral, o índice de participação foi de 83%, considerado alto para a média da Alemanha, onde voto não é obrigatório.
Mas as urnas também consagraram o AfD, que, embora tenha ficado em segundo lugar, foi a sigla que mais expandiu dentro do Parlamento, onde inflou e levou 69 assentos a mais dos que tinha em 2025, tornando-se, pela primeira vez, uma força consolidada no Bundestag.
Esta foi também uma ascensão recorde para um partido radical de direita desde a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas liderados por Adolf Hitler governaram o país.
Embora vencedor, o CDU não obteve a maioria necessária para governar, e caberá agora ao líder da sigla, Friedrich Merz, tentar alianças com outros partidos para conseguir formar governo.
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Formação de governo
O líder da CDU, Friedrich Merz, fala a apoiadores após resultado de boca de urna das eleições na Alemanha indicarem vitória de seu partido, em 23 de fevereiro de 2025.
Fabrizio Bensch/ Reuters
O resultado não significa que Merz se torna automaticamente o próximo chefe do governo alemão.
Como o país tem um modelo parlamentarista, o partido vencedor tem de obter o número de votos correspondente à quantidade mínima de assentos no Parlamento para formar governo.
A porcentagem do CDU apontada na boca de urna não é suficiente para isso, e será necessário que o partido forme aliança com outras siglas para governar. A negociação entre o CDU e outras siglas por uma aliança que permite a formação de um novo governo pode levar meses e, caso não haja acordo, novas eleições são convocadas.
Friedrich Merz já disse que não pactará com o AfD, mas falas suas durante a campanha, principalmente relativas à imigração, levantaram a suspeita de que ele poderia mudar de ideia.
Em discurso após o resultado da boca de urna, Merz disse achar importante formar um governo “o quanto antes”. O líder da CDU disse ainda que o resultado significa que “a Alemanha está presente na Europa novamente”.
“Estamos sob uma pressão tão grande de dois lados que minha prioridade absoluta agora é alcançar a unidade na Europa. É possível criar unidade na Europa,” disse ele em uma mesa redonda com outros líderes.
Já o atual premiê, Olaf Scholz, reconheceu derrota de seu partido, o PSD, no pleito, em discurso também após o fechamento das urnas.
A contagem dos votos deve durar até o fim da noite do horário local (início da noite pelo horário de Brasília).
Colapso do governo de Olaf Scholz
As eleições realizadas neste domingo na Alemanha foram convocadas em dezembro do ano passado de forma antecipada por conta de uma crise que colapsou o governo anterior.
O chanceler Olaf Scholz, está no poder desde 2021 e tinha um governo que unia três correntes distintas: social-democratas, ecologistas e liberais.
Em novembro, ele demitiu seu ministro das Finanças, que é liberal, após discordâncias sobre a política econômica. Em protesto, os outros ministros liberais do governo anunciaram renúncia ao governo, deixando o gabinete de Scholz sem maioria no Parlamento Federal, o Bundestag, o que, na prática, tornou seu governo inviável.
O chanceler — cargo que, na Alemanha, chefia o governo — foi submetido a uma moção de censura no Parlamento e reprovado, e o presidente do país — chefe de Estado — convocou novas eleições.
O momento é extramamente incomum para a Alemanha: esta foi apenas a quarta eleição antecipada nos 75 anos desde a fundação do estado moderno alemão.
A queda do governo na maior economia da União Europeia ocorre também em um momento de tensões elevadas com a Rússia por conta da guerra na Ucrânia e segue a tendência de outros países do bloco, como a França.
Como funcionam as eleições na Alemanha
Eleitor deposita vota na urna. Alemanha tem eleição parlamentares neste domingo (23)
Nadja Wohlleben/Reuters
Em linhas gerais, os eleitores escolhem um candidato, mas também votam em um partido. Quanto mais votos a legenda receber, mais cadeiras terá no Bundestag.
Com o crescimento da extrema direita, representada pelo partido AfD, especialistas apontam que a formação de uma coalizão governamental será difícil, o que pode ameaçar a estabilidade política do país.
Nos últimos anos, todos os partidos que compõem o Bundestag se recusaram a trabalhar ou formar alianças com a AfD, já que a legenda é investigada por extremismo e acusada de abrigar movimentos neonazistas.
Além disso, a eleição na Alemanha, a maior economia da União Europeia, também pode definir os rumos do bloco e as respostas da Europa a provocações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump sobre a Ucrânia e as tarifas.
Como é a eleição na Alemanha
Nas eleições alemãs, o eleitor precisa preencher duas cédulas, conhecidas como Erststimme (primeiro voto) e Zweitstimme (segundo voto).
No primeiro voto, o eleitor escolhe um candidato do distrito em que mora para ser eleito deputado.
No segundo voto, o eleitor vota em um dos partidos que concorrem às eleições.
Vale ressaltar que o eleitor não é obrigado a votar no mesmo partido nas duas cédulas. Ou seja, é possível escolher um candidato de um partido no primeiro voto e, no segundo, apoiar outra legenda.
Das 630 cadeiras do Bundestag, 299 são ocupadas pelos deputados eleitos diretamente em seus respectivos distritos. As outras 331 são distribuídas proporcionalmente ao número de votos que cada partido recebeu. Ou seja, quanto mais votos um partido obtiver, mais assentos ele terá no Parlamento.
Na distribuição proporcional, os partidos preenchem suas cadeiras com base em uma lista estaduais pré-definidas e registrada junto às autoridades eleitorais antes da votação. Geralmente, essa lista é liderada pelo principal nome do partido, que costuma ser o candidato a chanceler.
Com o Parlamento formado, cada partido irá indicar um nome para a escolha do próximo chanceler e cabe ao presidente alemão escolher um dos candidatos.
Após a escolha do presidente, os parlamentares realizam uma votação interna e secreta para decidir se o nome será aprovado ou não. Se eleito, o chanceler começa a formar o governo.
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Fonte: G1

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