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Cuiaba - MT / 5 de março de 2026 - 23:18

O que os pombos podem ensinar sobre nossa fixação por celulares e apps

Há mais de 50 anos, psicólogos começaram a documentar um fenômeno estranho entre animais, incluindo pombos, guaxinins e ratos. Embora não percebessem na época, esse comportamento ajudaria a explicar por que nossa sociedade desenvolveu uma necessidade tão intensa e frequentemente incontrolável de usar o celular.

Os dispositivos e seus aplicativos não nos proporcionam “gratificação instantânea”, como costumamos acreditar, mas, em vez disso, desencadeiam o oposto: desejo e vontade constantes.

Na década de 1970, cientistas colocaram pombos famintos em uma caixa comprida e ensinaram às aves que uma luz piscando em uma extremidade da caixa sinalizava o aparecimento de comida na outra ponta. A luz se tornou um sinal de recompensa.

No início, os pombos ignoravam amplamente a luminosidade e passavam o tempo no lado da caixa perto da comida. Eles queriam e precisavam da comida. Mas, com o tempo, a luz passou a atrair os pombos como um ímã. “Era incrível de assistir”, relembra o psicólogo Robert Boakes, da Universidade de Sydney, que foi um dos primeiros cientistas a documentar esse fenômeno.

“Os pássaros passavam tanto tempo bicando a luz que não tinham tempo de pegar a comida”, recorda. Boakes chamou esse comportamento de “rastreamento de sinal” porque os animais perseguiam o “sinal” da recompensa. Tec, tec, tec.

Em um experimento, um pombo bicou a luz milhares de vezes por hora. A luz distraía tanto os pássaros que eles passavam fome.

Hoje, quase todo mundo nos Estados Unidos se tornou igualmente distraído. As pessoas são “exatamente como os pombos”, afirma Peter Balsam, professor de psicologia da Universidade Columbia. Porque, segundo ele, carregamos um dispositivo que provoca esse comportamento bizarro: nossos celulares. Desliza, desliza, desliza. Rola, rola, rola. Toca, toca, toca.

Os smartphones —assim como suas plataformas de redes sociais, aplicativos de mensagens e videogames— podem nos enganar a ponto de não buscarmos mais o que precisamos em nossas vidas. Começamos a valorizar, desejar e até nos tornar obcecados por sinais em nossos dispositivos que associamos às nossas necessidades fundamentais, como pertencimento.

“Como criaturas sociais, as pessoas são levadas a considerar a interação social tão atraente quanto comida, água, sexo e sal”, avalia o neurocientista Read Montague, de Virginia Tech.

Celulares, tablets e aplicativos fornecem um caleidoscópio de imagens e sons que sinalizam a possibilidade de pertencimento, assim como a luz sinalizava comida na caixa do pombo. Esses sinais incluem os ícones coloridos dos aplicativos, os pontos vermelhos de notificação sobre eles e os sinos, chiados, vibrações e toques que os acompanham. Até o próprio dispositivo se transforma em um sinal potente para as pessoas.

Neurocientistas descobriram que a substância química cerebral dopamina nos atrai para esses sinais. Antigamente, acreditava-se que a dopamina codificava prazer, mas uma vasta quantidade de evidências acumuladas nas últimas décadas sugere que não é bem assim.

Em vez disso, ela desempenha vários papéis. Ela desencadeia motivação e desejo por necessidades fundamentais. Ela faz você querer o bolo à sua frente, declara o neurocientista Kent Berridge, da Universidade de Michigan. Mas não faz você gostar do bolo ou se sentir satisfeito depois. A dopamina não tem a ver com gratificação. Querer e gostar são, de certa forma, componentes separáveis dentro do cérebro, acrescenta Berridge.

O sistema da dopamina também identifica sinais em nosso ambiente que apontam e preveem a chegada dessas necessidades críticas. Ele se ativa quando você vê o logotipo da confeitaria na rua ou quando vê seu celular em cima da mesa.

O que muitos pais podem não perceber, diz Montague, é que o conteúdo nas redes sociais e aplicativos de mensagens é um mero sinal de pertencimento. Por isso, ele não pode satisfazer a necessidade de uma criança por interações e relacionamentos presenciais. Em vez disso, representa uma espécie de versão “esquelética” de uma vida social real, indica. Uma que pode “sufocar” a vida social real de uma criança.

Para proteger nossos filhos (e a nós mesmos) desses sinais poderosos, precisamos criar momentos e lugares em nossas vidas onde dispositivos, aplicativos e jogos não sejam simplesmente limitados, mas indisponíveis, analisa o neurocientista de Virginia Tech.

As crianças precisam de santuários em suas vidas onde atividades que realmente satisfaçam suas necessidades possam florescer. Montague dá como exemplo uma regra familiar de que seus filhos adolescentes só podem usar seus celulares em lugares onde a família se reúne, como a cozinha, nunca em seus quartos.

Quando as crianças têm um desejo intenso por esses produtos, nem sempre significa que estão obtendo prazer e satisfação intensos deles. Na verdade, essas tecnologias podem eliminar o prazer e deixar as crianças com pouca gratificação.

Cortar o acesso não significa privar ou negar prazer às crianças na vida. Na verdade, pode significar o oposto. Se buscarmos e proporcionarmos às crianças atividades que lhes tragam satisfação, então podemos preencher suas vidas com prazer duradouro enquanto também atendemos genuinamente às suas necessidades.

Montague explica a seus filhos adolescentes como ficar sozinho no quarto tirando selfies na verdade impede você de satisfazer sua necessidade de conexão social. “Eu digo: ‘Como isso é legal? Parece patético e solitário. Saia e se apresente a pessoas de verdade'”.

noticia por : UOL

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