A afirmação vai parecer o maior dos clichês, mas não deixa de ser verdade por causa disso: os filmes de “O Senhor dos Anéis” dirigidos por Peter Jackson se tornaram vítimas de seu próprio sucesso, ao menos do ponto de vista de futuras produções ambientadas no universo criado pelo britânico J.R.R. Tolkien.
A linguagem visual concebida pelo diretor neozelandês para dar forma à Terra-média ganhou tamanha consistência no imaginário coletivo que, até hoje, qualquer tentativa de trilhar caminhos alternativos —inclusive por integrantes da própria equipe de Jackson— fracassou em recuperar a magia inaugural dos filmes lançados no início deste século.
Essa força pode ser percebida até em aspectos aparentemente banais, como os desenhos dos personagens da saga, sejam eles feitos por fãs anônimos ou por artistas profissionais. Não é exagero afirmar que essas imagens podem ser datadas segundo uma espécie de cronologia própria, dividida entre APJ e DPJ —antes e depois de Peter Jackson, naturalmente.
O resultado é uma verdadeira “colonização do imaginário” pelos figurinos e fisionomias estabelecidos nos primeiros filmes. Do desenho do cajado do mago Gandalf nas telas ao rosto quase adolescente de Frodo, na interpretação de Elijah Wood, tudo indica que, para muita gente, esse universo só pode ser visto através das lentes da trilogia iniciada em 2001.
Por um lado, é um feito notável —talvez comparável, na cultura pop, apenas ao impacto da primeira trilogia de “Star Wars” nos anos 1970 e 1980. As razões dessa canonização cinematográfica não são fáceis de destrinchar. Mas, além de um elenco original particularmente inspirado e da ousadia de filmar, de uma só vez, três longas com cerca de três horas cada, é possível apontar ao menos dois outros fatores decisivos.
Primeiro, Jackson fez a lição de casa no que diz respeito a um elemento-chave do texto que estava adaptando: a construção de mundo de Tolkien. Incorporando o trabalho dos artistas que já retratavam a Terra-média no papel, como Alan Lee e John Howe, o diretor e sua equipe criaram vestimentas, cidades e ecossistemas inteiros, cuja riqueza de detalhes transmite a sensação de um “mundo vivido” com milênios de história.
Em segundo lugar, o diretor e as roteiristas Fran Walsh e Philippa Boyens souberam extrair o máximo da prosa original do escritor britânico, chegando a deslocar diálogos para outros contextos e personagens, mas sempre preservando o texto. E, digam o que disserem os detratores, o olhar para o épico jamais faltou a Tolkien.
Por outro lado, adaptar a narrativa central de “O Senhor dos Anéis” talvez fosse a etapa mais fácil do projeto. Entre as obras de Tolkien, é a que mais se aproxima da estrutura de um romance popular do século 20. As coisas começaram a desandar quando “O Hobbit”, livro infantojuvenil relativamente curto, foi inflado até virar outra trilogia, com filmes de três horas em que a equipe neozelandesa oscila sem convicção entre o alívio cômico e batalhas grandiosas, porém pouco verossímeis.
No balanço geral, essa segunda leva de filmes, lançada entre 2012 e 2014, não vai além do medíocre, apesar do êxito comercial e de algumas boas atuações.
Parte dos problemas artísticos de “O Hobbit” talvez esteja no fato de que os filmes foram moldados para explorar a nostalgia em torno da primeira trilogia. A mesma engrenagem acabou por dificultar tentativas mais ousadas de abordar o universo tolkieniano —como se viu no fracasso comercial, em grande medida injusto, do anime “A Guerra dos Rohirrim” (produzido pela equipe de Jackson) e na recepção hostil de uma parcela significativa dos fãs à série “Os Anéis de Poder”, do Prime Video.
Nos dois últimos casos, o problema é agravado por duas coisas: a necessidade de adaptar um material-base muito mais fragmentado, oriundo dos apêndices pseudo-históricos de “O Senhor dos Anéis”; e as guerras culturais do século 21, que puseram anime e série na mira por terem protagonistas femininas e um elenco etnicamente diverso —pecados capitais na “incelândia” da internet.
Tanto a reexibição da trilogia original quanto o anúncio de dois novos filmes indicam que Jackson e companhia ainda estão presos à máquina de nostalgia. Enquanto os direitos para adaptação de outras obras de Tolkien continuarem indisponíveis, não vai ser fácil escapar dessa lógica.
noticia por : UOL




