Os mais velhos lembram-se bem do terminal rodoviário da Luz, enfeitado com pastilhas e grandes painéis de acrílico multicoloridos que lhe davam um aspecto futurista. Recordam-se também da agitação frenética que havia no lugar, cerca de 10 mil pessoas em média circulavam por lá diariamente, e dos congestionamentos gigantes que se formavam no entorno, principalmente na rua Mauá e nas avenidas Duque de Caxias e Rio Branco.
Inaugurado em 1961, com projeto do arquiteto Carlos Lemos, o terminal se localizava entre a alameda Barão de Piracicaba e a praça Júlio Prestes, bem perto da estação ferroviária do mesmo nome.
Incrivelmente, São Paulo não tinha uma rodoviária até então. Para usar ônibus intermunicipais ou interestaduais as pessoas compravam as passagens em agências de turismo espalhadas pelo centro e embarcavam nas calçadas da região sem que houvesse um ponto bem definido. Era muita precariedade para uma cidade que já tinha 3,8 milhões de habitantes.
O terminal foi um empreendimento privado dos empresários Carlos Caldeira Filho e Octavio Frias de Oliveira, que também adquiriram a Folha em 1962. Desde os anos 1950 se planejava fazer uma rodoviária na cidade, mas sem acordo em relação ao local. Pensou-se inicialmente em instalá-la perto da avenida Tiradentes, mas a ideia não vingou.
O terminal da Luz marcou profundamente a memória de várias gerações. Além dos painéis de acrílico, ele possuía um chafariz no seu interior, mezaninos que permitiam observar as áreas de embarque e desembarque e foi equipado, a partir dos anos 1970, com várias TVs a cores para os usuários passarem o tempo enquanto esperavam a chegada ou a partida dos ônibus. Durante a Copa de 1974, na Alemanha, muitos curiosos se aglomeravam diante delas para assistir aos jogos.
Como era um local de circulação de milhares de pessoas que chegavam e saíam da cidade, diversas residências das redondezas foram convertidas em hotéis. A movimentação intensa fez com que muitos moradores deixassem suas casas na região em busca de mais sossego e segurança em outros bairros, já que cresceu a criminalidade na região.
A partir de 1977, sua importância logística começou a diminuir por causa do terminal Jabaquara, que absorveu a demanda dos viajantes que iam de ônibus para a Baixada Santista. Em 1982, a rodoviária da Luz encerrou completamente suas atividades devido à inauguração do terminal Tietê.
Durante seis anos o espaço ficou ocioso até ser comprado, em 1988, por um grupo de empresários que o transformou no shopping Fashion Center Luz. A área comercial funcionou até 2007, quando foi desapropriada pelo poder público para receber o Teatro de Dança de São Paulo, um projeto do escritório suíço Herzog & De Meuron que nunca saiu do papel.
Depois da demolição, o terreno de 18 mil m2 virou um grande vazio urbano que intensificou uma tendência verificada desde os primeiros anos de funcionamento da rodoviária: a deterioração do espaço ao redor e a proliferação de prostíbulos e cortiços. O campo se abriu também para a consolidação da cracolândia, que havia começado a se formar no final da década de 1990.
Durante dez anos nada foi feito no local, até que, em 2016, se decidiu implantar um projeto residencial. Atualmente, onde funcionou o antigo terminal há um conjunto de prédios com moradias de interesse social. São 1.200 apartamentos com um ou dois quartos. Os edifícios têm fachada ativa e sobre uma fileira de lojas há um mosaico multicolorido que remete aos painéis da antiga rodoviária da Luz.
As várias camadas de história guardadas no terreno da estação serão expostas no passeio Circuitos Urbanos, promovido pelo Museu da Energia de São Paulo no próximo dia 18 de abril.
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noticia por : UOL




