O italiano Sandro Veronesi encheu a Feira do Livro, na tarde deste sábado (30), e superou problemas de tradução e o barulho alto de um evento de MMA, também no bairro do Pacaembu.
Apesar dos problemas iniciais, que dificultaram o diálogo com o mediador, o jornalista Ruan de Sousa Gabriel, o autor não se conteve e falou sobre a multidão, que o impressionou, e sobre seu conterrâneo Carlo Ancelotti, o técnico da seleção brasileira.
“São 5 milhões de italianos em São Paulo”, disse Veronsei em sua língua-mãe. Quando a tradução se estabilizou, Veronesi falou mais livremente sobre seus livros, que exploram o herói comum. Ele contou que sua família era muito diferente daquela retratada em “Anna Karenina“, de Liev Tolstói, “infeliz à sua maneira”. “Meus pais eram pessoas comuns, sem grandes problemas.”
Mas, como disse, não é porque uma pessoa parece comum que sua vida não é interessante, destacando ele mesmo como exemplo. “Hoje estou no palco, mas normalmente estou em filas.”
Os heróis comuns, segundo ele, são pessoas que enfrentam situações que exigem improvisos, como ter a própria mãe levada ao hospital ou passar por uma separação. Escrever sobre isso, diz ele, é sua forma de rezar pelas pessoas comuns.
Em suas palavras, ao distribuir autógrafos, pessoas dizem ler em seus livros a história de suas vidas. “Eu digo ‘sinto muito’, porque minhas histórias não são muito felizes.” Muitas delas, aliás, vêm de sua formação diversa, que reúne desde Fiódor Dostoiévski até rostos da turma do cachorro Snoopy.
O italiano ainda anunciou que “Terras Raras”, sua próxima obra, deve chegar ao Brasil pela Autêntica Contemporânea. O livro é uma continuação de “Caos Calmo”, com o qual Veronesi gostaria de ter vencido outro Strega. Ele levou o maior prêmio da literatura italiana duas vezes, com “Caos Calmo” e “O Colibri”.
Mais cedo, no auditório do Museu do Futebol, a catalã Mar García Puig já havia estreado a presença de vozes internacionais no festival –com a tradução funcionando de forma menos turbulenta com fones individuais.
A autora acaba de chegar ao mercado brasileiro com seu primeiro livro, “A História dos Vertebrados”, em que conta como enlouqueceu no dia em que os filhos gêmeos nasceram, quando também foi eleita deputada de seu país.
Essa loucura recebeu um diagnóstico dias depois —uma crise de ansiedade pós-parto com delírios hipocondríacos. O que significa que, quando se tornou mãe, Puig passou a temer a morte.
Apesar de dizer que não ficou “louca” quando entrou na maternidade —e de temer a romantização do termo abraçado pela catalã—, a jornalista e escritora Marcella Franco tem medos similares aos da colega.
Ela e Puig dividiram a mesa, com mediação da jornalista Tatiana Vasconcellos. Franco recentemente publicou “Solo”, sobre ter criado seu filho sozinha.
A autora contou que, na época em que foi editora de Folhinha e Folhateen no jornal, encontrou outras mulheres que também eram mães solo. A partir daí, disse que passou a enxergar suas experiências como coletivas.
Apesar de os livros de Puig e Franco permitirem a muitas mães se reconhecerem, a catalã ainda acha um problema que obras sobre mães sejam frequentemente direcionadas a um mercado exclusivamente feminino. “Enquanto isso, livros sobre guerra são vendidos como universais, sendo que nem todos sentiram a dor da batalha.”
Além disso, o sábado teve ainda a primeira mesa da programação Folha na Praça, promovida pelo jornal no principal palco do evento.
O editor Eduardo Scolese e a fotojornalista Gabriela Biló, com mediação da repórter especial Flavia Lima, conversaram sobre a cobertura do Jair Bolsonaro durante a pandemia.
“Nada se compara ao que aconteceu no governo Bolsonaro em termos de ataques diretos à imprensa, com ameaças a anunciantes e cortes de assinaturas”, disse Scolese. À época, ele comandava a editoria de Política e relatou a experiência no livro “1.461 Dias na Trincheira”, publicado pela Autêntica.
“Existia toda uma troca dentro da democracia, com papéis estabelecidos, e isso é rompido no governo Bolsonaro, que tratava a imprensa como inimiga”, disse Biló, que registrou a política em Brasília.
Ela lançou dois livros pela Fósforo com suas fotos —”A Verdade vos Libertará” e “Juízo Final”, ambos em parceria com Pedro Inoue e com a equipe do podcast “Medo e Delírio em Brasília”.
Scolese e Biló lembraram quando os veículos decidiram, em conjunto, não cobrir mais a portaria do Palácio do Alvorada —uma tradição interrompida após ataques de militantes bolsonaristas.
“Fomos obrigados a abandonar essa cobertura por falta de segurança”, disse Scolese. O jornalista lembrou como o tom crítico da cobertura, mesmo com a abertura ao contraditório, incomodou o então presidente e seus defensores.
“O presidente incitava apoiadores contra a gente”, disse Biló. “Assim que Bolsonaro saía [do cercadinho], começavam as violências, vinham para cima fisicamente, reviravam nosso material.”
A fotojornalista disse ainda ter ficado internada por dez dias no hospital, com Covid-19, ainda meio à cobertura do Alvorada —onde “parecia que não existia pandemia”.
noticia por : UOL




