Após um dia de trabalho, quando o pescoço ou a lombar começam a incomodar, a resposta imediata costuma ser alcançar o remédio relaxante muscular mais próximo. Isso também acontece após um treino mais pesado na academia ou uma má noite de sono, mas o hábito oferece mais riscos do que se imagina.
Segundo especialistas, o problema envolve desde sonolência e queda de pressão até a possibilidade de mascarar uma lesão que precisaria de outro tratamento.
Os relaxantes musculares não agem diretamente no músculo que dói. Eles atuam no sistema nervoso central, bloqueando os neurotransmissores responsáveis pela tensão da fibra muscular, explica a cardiologista Ligia Trevizan, do Hospital Municipal M’Boi Mirim, gerido pelo Einstein.
É esse mecanismo que explica a sonolência, a lentidão e a redução dos reflexos associados ao medicamento. O efeito está relacionado ao maior risco de acidentes de trânsito e de trabalho.
“Pode diminuir reflexo e coordenação, e isso aumenta o risco de a pessoa prender a mão numa prensa, por exemplo”, diz o ortopedista João Polydoro, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Além disso, o remédio trata o sintoma e não a causa, afirma o médico, o que é um perigo porque pode mascarar uma hérnia de disco, uma compressão nervosa ou uma inflamação de tendão.
Pacientes com problemas renais, cardíacos e no fígado devem ter ainda mais cuidado com a automedicação, dizem os especialistas.
O fígado e os rins são responsáveis por metabolizar e eliminar o remédio, e problemas nesses órgãos podem potencializar seu efeito, segundo Trevizan. O relaxante também pode descompensar uma arritmia já existente ou interagir com remédios cardíacos, diz Polydoro.
A queda de pressão e tontura, acompanhadas da sonolência, são perigosas principalmente para idosos, segundo os especialistas, uma vez que podem ocasionar queda.
Já pacientes que utilizam remédios para depressão, opioides e benzodiazepínicos devem ficar atentos.
A combinação pode aumentar a sedação e deprimir ainda mais o sistema nervoso central.
“Cada organismo metaboliza o remédio de um jeito, sobretudo quando há outras medicações em uso. Por isso, a interação medicamentosa deve ser avaliada antes de qualquer prescrição”, diz a cardiologista Trevizan.
O que fazer em vez de se automedicar
Os especialistas oferecem outras formas de se cuidar antes de recorrer ao remédio sem prescrição. O primeiro passo é tratar a causa da dor, não apenas o sintoma, afirma Trevizan. Esse é o único jeito de individualizar o tratamento para cada paciente.
Um exercício orientado para fortalecer a musculatura pode ser indicado em casos de dor crônica nas costas, a depender da causa identificada. A fisioterapia, diz Polydoro, tem resultados comprovados para dores cervicais e lombares.
O ortopedista recomenda ainda a prevenção da dor. Ajustes no ambiente de trabalho, como altura da tela do computador, cadeira adequada e apoio para as costas podem ajudar. Pausas de 15 minutos a cada duas horas para alongamento também reduzem a sobrecarga muscular.
Compressas de calor local são outra medida não medicamentosa que pode aliviar o desconforto, segundo o ortopedista.
Para quem sente dor após exercícios físicos, ele recomenda avaliar se há excesso de carga ou técnica inadequada, e não apenas recorrer ao remédio.
“É importante saber que o relaxante muscular geralmente não é para tomar sempre. Ele é um tratamento de curto prazo. E se a dor fica sempre ali e está recorrente, é mais importante saber qual é a causa em vez de passar a depender de um remédio que alivia o sintoma”, diz Polydoro.
noticia por : UOL




