Eu estava dirigindo em uma autoestrada quando vi, no acostamento, um homem correndo com uma cadeira de praia na mão. Aonde o sujeito ia? Não havia nada à vista, além da vegetação. Ele segurava o objeto dobrado, pela haste de metal, sem perder o fôlego. Imediatamente comecei a aventar.
1. Era um ladrão de galinhas que havia entrado em um casebre. Ele até esperava pobreza, mas não tanto. Quem morava ali não tinha um televisor. Nem sequer um rádio ou um par de tênis falsificado. Ele já tinha tido o trabalho de arrombar a porta, recusou-se a sair de mãos abanando. Pegou uma cadeira portátil e, com ela em punho, deu no pé.
2. O rapaz aprendeu num tutorial: quem não tem ferro, malha com gato. E claro que ele não tinha ferro, morava no meio do nada. Fez o que o influenciador ensinou, usar o que se tem em casa. Primeiro treino: correr meia hora com um objeto de dois quilos na mão.
3. Festa de sete anos na casa da Sophia. A mãe da menina propôs dança das cadeiras. A molecada se animou. Ela e o marido juntaram todas as cadeiras que tinham no meio da sala. Não era o suficiente, um ou outro teria que ficar de fora, quem seria? As crianças começaram a brigar entre si; um chorando, era sempre o excluído, o outro argumentando bullying, até a família da Sophia achava ele o pior em tudo? A mãe da menina vira-se para o pai: vai ali no posto e compra uma de praia, tá baratinho.
4. A performance “Homem correndo com cadeira na mão” dialoga com a busca por cadeiras e cargos no corporativismo estendido. Se antes a “rat race” corria só nos centros urbanos, com o trabalho remoto passou a correr em todos os lugares, daí a escolha do artista por disparar no meio do nada, representando a ânsia coletiva por um lugar ao sol na estrada do capitalismo.
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5. Sara e Davi acharam que haviam encontrado o espaço perfeito para o seu casamento, o Restaurante Green’s, Km-35, no meio do mato, com vista para o verde. Foi só na hora do Hava Nagila, em que a noiva e o noivo deveriam ser levantados no topo de duas cadeiras, como manda a tradição, que perceberam o peso dos assentos em mogno maciço. Os convidados até conseguiam erguer a noiva, mas o noivo, que pesava 140 quilos mais a madeira, era insustentável, ainda mais porque deveriam sacudi-lo no ritmo da música. O dono do restaurante veio correndo com a solução.
6. O rapaz levou a garota para o alto do morro ver o pôr do sol. Ao chegar lá em cima, ela tentou se controlar, mas não conseguiu. Precisou revelar que tinha TOC, sentia uma tremenda agonia se sentasse no chão. O rapaz, apaixonado, não ia estragar o momento: fica aí de pezinha que já resolvo isso.
7. O município só tinha um cartório para atender a região. A mulher entrou procurando onde se sentar, andava com muita dor no joelho, mas, como sempre, o lugar estava cheio. As cadeiras ocupadas por uma gestante e pelos velhos mais velhos –os velhos mais novos aguardavam em pé. Ela sentiu que não ia aguentar as fisgadas no menisco. Ligou para o filho: ou ele lhe levava uma cadeira ou ela não iria fazer a transferência de imóvel, como ele tanto queria.
De todas as possibilidades aventadas acima, a mais provável é nenhuma. Aprendi, na prática, que a vida sempre dá um baile de criatividade na ficção.
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noticia por : UOL



