
Voluntários e equipes de resgate ajudam a encontrar sobreviventes em um prédio que desabou em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 30 de junho de 2026
MIGUEL MEDINA / POOL / AFP
Quase uma semana depois dos terremotos que deixaram quase 2.000 mortos e dezenas de milhares de desaparecidos, a Venezuela prossegue com a busca desesperada por sobreviventes, enquanto tenta ajudar as pessoas que perderam praticamente tudo na tragédia.
A emergência humanitária se agrava no país com a falta de alimentos e teto para dezenas de milhares de pessoas nas ruas após o duplo terremoto.
No estado de La Guaira, o mais devastado, há uma escassez de comida “generalizada” e serviços básicos colapsaram, advertiu na terça-feira o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
“Aqui dão provisões, mas às vezes as pessoas chegam a se matar por comida (…), parece um galinheiro (…), ontem chegaram às vias de fato, é uma loucura”, disse à AFP Daniela Armas, de 18 anos, com o pé suturado e medo de voltar ao seu apartamento danificado em Catia La Mar, em La Guaira.
Um homem desabrigado após os terremotos gêmeos de 24 de junho tira uma soneca em uma cadeira em um acampamento improvisado no complexo esportivo José Maria Vargas, em Maiquetia, estado de La Guaira
FEDERICO PARRA / AFP
As equipes de resgate continuam a busca por sobreviventes. Apesar das possibilidades cada vez menores, os voluntários lembram do resgate milagroso, na terça-feira, de um menino de três anos encontrado com vida por socorristas jordanianos sob os escombros de um prédio.
A AFP acompanhou socorristas americanos na noite de terça-feira em um conjunto residencial de duas torres em Catia La Mar. A equipe deixou o local depois que não conseguiu estabelecer a presença de pessoas com vida.
Uma sobrevivente, Andrea Canónico, de 23 anos, relatou que conseguiu sobreviver 48 horas sob seis metros de escombros porque conseguiu manter a calma. “O principal é que eu nunca me desesperei”, disse a jovem à AFP em Los Corales, no estado de La Guaira.
O número oficial de mortos subiu na terça-feira para 1.943, enquanto a ONU estima em cerca de 50.000 os desaparecidos após os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 de 24 de junho, que estão entre os mais violentos já registrados na América Latina.
O governo evita falar dos desaparecidos, mas afirma que no dia dos tremores havia cerca de 30 mil pessoas em La Guaira, das quais 6.461 foram resgatadas e mais de 13 mil saíram por seus próprios meios ou foram ajudadas por familiares e amigos. Do restante, nada se sabe.
Membros do 7º Regimento Francês de Treinamento e Intervenção em Segurança Civil (RIISC 7) trabalham durante uma operação de resgate em Caraballeda
MIGUEL MEDINA / AFP
Risco de doenças
As necessidades são tão grandes que o Programa Mundial de Alimentos da ONU solicitou à comunidade internacional 50 milhões de dólares (R$ 258,7 milhões) para alimentar cerca de 500 mil pessoas durante três meses.
Antes da tragédia, a ONU calculava em quase 8 milhões o número de pessoas que precisavam de ajuda humanitária na Venezuela. A agência para refugiados das Nações Unidas emitiu um alerta sobre tensões em aumento pelo acesso “limitado” à ajuda.
À urgência por alimentos e abrigo soma-se o risco de epidemias. A Organização Mundial da Saúde alertou para a “pressão extrema” sobre os serviços de saúde e para o risco “de doenças como sarampo, difteria e coqueluche”.
“Seria preciso mais ajuda”, diz Diorjailis Escalona, médica de 23 anos, que, apesar de se sentir “arrasada”, trabalha como voluntária e agradece o apoio internacional com equipes de resgate, medicamentos e alimentos.
O governo contabiliza, de seu lado, cerca de 16 mil desabrigados, número muito distante da estimativa da ONU de sete milhões de pessoas nessa condição.
O porto de La Guaira, que havia ficado fora de serviço, assim como o principal aeroporto da Venezuela, foi reativado pelos marines americanos para acelerar a entrada de assistência.
Moradores desabrigados após os terremotos gêmeos de 24 de junho organizam seus pertences em um acampamento improvisado em um campo de beisebol em Catia La Mar
FEDERICO PARRA / AFP
Busca angustiante
O governo militarizou La Guaira e passou a exigir uma autorização para permitir o acesso à área do desastre.
Ao todo, 27 países mobilizaram cerca de 40 equipes de busca e resgate, que na terça-feira continuavam escavando entre montes de ferro e concreto.
São mais de 2 mil agentes e profissionais, além de mais de 160 cães, segundo a ONU, que anunciou que fornecerá 10 mil sacos para cadáveres, embora espere que o balanço final seja inferior.
Parte da família de Soraida Torrealba a procura entre os escombros de seu edifício em La Guaira. “Sinto que estou de mãos atadas porque não a encontro, não sei nada dela”, lamenta sua irmã, Rosanna Luna, de 44 anos.
Fotos de crianças, idosos e casais, acompanhadas de seus nomes, descrições e de um número de telefone para receber informações, inundam as redes sociais.
A Nasa, agência espacial americana, calcula que 58 mil edifícios foram danificados ou destruídos. E a ONU avalia danos materiais de 6,7 bilhões de dólares (R$ 34,7 bilhões), o equivalente a 6% do PIB do país petrolífero.
Em meio à devastação, desabrigados como Juan Cordero, técnico de futebol amador, incentivava um grupo de crianças a jogar em um acampamento improvisado em Catia La Mar.
Voluntários e equipes de resgate ajudam a encontrar sobreviventes em um prédio que desabou em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela
MIGUEL MEDINA / POOL / AFP
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Fonte: G1


