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Cuiaba - MT / 6 de março de 2026 - 3:18

Uso cuidadoso das fontes antigas corrobora a existência de Jesus

Minha última coluna, destacando o consenso acadêmico sobre a existência histórica de Jesus de Nazaré, provocou reações fortes, como era previsível. O espaço limitado —alguns leitores esquecem que as colunas desta Folha ainda têm contagem fixa de palavras— não me permitiu abordar muitos aspectos interessantes. Por isso, volto ao tema agora.

Vamos pensar no que sabemos sobre o mundo antigo tomando como exemplo dois gigantes da historiografia grega: Heródoto e Tucídides. Ambos escreveram durante o século 5º a.C. E ambos abordam as guerras entre gregos e persas –sim, aquele conflito distorcido na série “300”– em parte de sua obra. (Heródoto também aborda a cultura de uma miríade de povos, dos egípcios aos citas, enquanto o foco principal de Tucídides é o conflito entre Atenas e Esparta.)

O que os dois dizem sobre a invasão persa foi escrito várias décadas após o fim da guerra –aliás, mais ou menos a mesma distância temporal que separa a vida de Jesus do momento em que os evangelistas do Novo Testamento escreveram. Nem Heródoto nem Tucídides foram testemunhas oculares dos eventos.

O primeiro é, do nosso ponto de vista, mais crédulo, mencionando intervenções divinas e eventos milagrosos; o segundo soa cético, mas tinha o costume –aceitável para historiadores da Antiguidade– de simplesmente inventar diálogos entre embaixadores, generais etc. desde que eles se encaixassem no que lhe parecia ser correto para o contexto da narrativa.

Tudo isso significa que, do ponto de vista histórico, Tucídides e Heródoto não servem para nada? É claro que não. Em muitos casos, eles são a única fonte relativamente próxima dos eventos narrados que temos para entender figuras importantes do mundo grego, como o próprio Leônidas, um dos reis de Esparta e estrela de “300”.

Os historiadores atuais analisam cuidadosamente cada informação nas obras desses autores, tentam checá-las com outras fontes e chegam a um veredicto (ou a muitos, já que os debates nunca terminam de fato). E algumas coisas parecem sólidas demais para que qualquer um deles sonhe em descartá-las –como a própria existência de Leônidas, aliás, de quem não sobrou uma única unha do dedo, ponta de lança, sepulcro ou descrição feita por testemunha ocular.

Bem, os mesmos fatores e as mesmas metodologias se aplicam à pesquisa sobre o Jesus histórico. Primeiro, existem algumas menções à figura de Cristo em textos extrabíblicos, escritos por dois autores romanos –Tácito e Plínio, o Jovem– e pelo judeu Flávio Josefo. Todos são da virada do século 1º para o século 2º. (O texto de Josefo foi adulterado por escribas cristãos, mas o consenso é que ele tinha falado de Jesus em sua obra original, e há reconstruções bastante convincentes do que seria esse texto.)

A distância temporal entre esses textos e a vida de Jesus é menor que um século. Para os padrões da Antiguidade, não é muita coisa. Nas obras, o Nazareno é retratado como um pregador não muito importante –exatamente o que esperaríamos de fontes não cristãs num momento em que o movimento de Jesus ainda engatinhava.

Quanto às epístolas de Paulo e aos Evangelhos, não há motivos para achar que eles são fontes significativamente piores que Heródoto. É preciso peneirá-las com a metodologia histórica, claro. E, quando isso é feito, quase todos os especialistas chegam a uma conclusão clara: Jesus existiu.

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noticia por : UOL

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