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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 3:34

Você também se guia pela perda?

Perder uma nota de R$ 100 na rua parece sempre mais doloroso do que encontrar outra no chão no dia seguinte. O curioso é que, racionalmente, os dois eventos deveriam se anular: menos R$ 100 em um, mais R$ 100 no outro. Mas não é assim que nossa mente funciona. Schopenhauer já dizia que “a dor fala mais alto que o prazer”. E quando o assunto é dinheiro, essa máxima fica ainda mais evidente.

A economia comportamental chama isso de “aversão à perda”. Daniel Kahneman e Amos Tversky, que estudaram profundamente esse comportamento humano, mostraram que a sensação negativa de perder R$ 100 é aproximadamente duas vezes mais intensa do que a satisfação de ganhar o mesmo valor. Ou seja, não apenas reagimos de forma desproporcional, mas carregamos essa emoção em nossas decisões futuras.

No mercado financeiro, essa tendência aparece em várias situações. Muitos investidores se recusam a vender ações que já caíram, mesmo quando as perspectivas da empresa pioraram. A lógica que prevalece é: “só vou vender quando voltar ao preço que paguei”. Nesse caso, o investidor não está mais avaliando o potencial do ativo, mas apenas tentando se livrar da dor de reconhecer a perda.

Do outro lado, quando há lucro, a reação costuma ser o oposto. Movidos pelo medo de perder o que já conquistaram, muitos vendem rápido demais, realizando pequenos ganhos antes que eles cresçam. É a clássica estratégia que corta os lucros e mantém os prejuízos. A dor da perda contamina até o prazer do ganho, fazendo com que a carteira acabe rendendo menos do que poderia.

Esse comportamento não aparece apenas em ações. Ele se estende ao patrimônio físico. Pense em alguém que tinha um imóvel alugado por R$ 5.000 e, após o inquilino sair, recusa ofertas de R$ 4.000. O imóvel fica meses vazio, gerando custo e nenhum rendimento. A perda em relação ao valor antigo parece inaceitável, ainda que racionalmente seja melhor ter R$ 4.000 entrando todo mês do que nada.

A ciência ajuda a explicar por que isso acontece. Estudos mostram que as áreas do cérebro ativadas em situações de perda são as mesmas relacionadas à dor física. Em outras palavras, perder dinheiro literalmente dói. Essa percepção ajuda a entender por que decisões financeiras, em momentos de crise ou instabilidade, podem ser tão irracionais.

O grande desafio do investidor é perceber quando está sendo vítima dessa armadilha mental. Ter consciência de que a dor pesa mais que o prazer é o primeiro passo para neutralizar o viés. Estratégias como diversificação, definição prévia de pontos de saída e um planejamento de longo prazo são formas de se proteger contra as próprias emoções.

Investir não é apenas analisar números ou acompanhar gráficos. É também lidar com nossas limitações humanas. Ao entender que a dor da perda sempre grita mais alto, o investidor pode aprender a silenciá-la e tomar decisões mais equilibradas. Afinal, será que você tem investido para buscar ganhos ou apenas para evitar a dor das perdas?

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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noticia por : UOL

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