Poucos minutos após um ataque a uma escola cheia de crianças no primeiro dia da guerra contra o Irã, autoridades do Pentágono sabiam que as Forças Armadas dos Estados Unidos eram responsáveis pela destruição total do local. Mas achavam que haviam atingido uma base iraniana.
Poucos dias depois do ataque, após uma enxurrada de reportagens contendo imagens de satélite, vídeos e relatos em primeira pessoa do episódio, autoridades americanas reconheceram em particular o que vinha ficando cada vez mais evidente: que as Forças Armadas dos EUA haviam cometido um erro trágico e atingido uma escola.
E, duas semanas após o ataque, a primeira parte de uma investigação preliminar sobre o ocorrido foi concluída: autoridades militares concluíram que o ataque com mísseis Tomahawk de 28 de fevereiro contra a escola foi resultado de um erro de mira causado por dados desatualizados.
O bombardeio matou pelo menos 175 pessoas, a maioria delas crianças, segundo autoridades iranianas.
No entanto, mais de 100 dias após o ataque, autoridades americanas ainda não reconheceram publicamente a responsabilidade pelas mortes, entre os milhares de civis mortos na região antes que um cessar-fogo provisório fosse alcançado neste fim de semana.
A investigação já está concluída e aguarda a aprovação de líderes militares de alto escalão, do secretário de Defesa Pete Hegseth e da Casa Branca, segundo autoridades militares, que falaram sob condição de anonimato porque o relatório ainda não foi divulgado. Não está evidente quando ele será tornado público, nem se alguém perderá o emprego.
“O incidente ainda está sob investigação”, afirmou o Pentágono em comunicado na semana passada, quando questionado sobre o silêncio.
As razões para o atraso, segundo autoridades a par da investigação, incluem um processo burocrático de revisão tipicamente moroso, envolvendo várias agências governamentais, uma dose de autoproteção do Pentágono e a descrença, por parte das agências de inteligência e de seleção de alvos envolvidas, de que seus dados pudessem estar tão catastroficamente errados.
Isso se somou a uma liderança civil no Departamento de Defesa que encara tais tragédias como um custo inevitável da guerra, afirmaram as autoridades.
Hegseth tem defendido rotineiramente a “letalidade acima da legalidade” e que as tropas americanas não devem ser limitadas por preocupações com danos a civis. “Chega de regras estúpidas”, afirmou ele.
No ano passado, Hegseth começou a tomar medidas para efetivamente encerrar os escritórios do Pentágono que se dedicam à prevenção e resposta a danos a civis durante operações de combate dos EUA.
Lá Fora
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Funcionários do Escritório de Mitigação e Resposta a Danos a Civis do Pentágono, que lida com políticas relacionadas à limitação de riscos a não combatentes, foram informados de que seu escritório seria fechado. Também lhes foi comunicado que o Centro de Excelência em Proteção Civil, responsável por treinamentos e procedimentos, seria encerrado.
O inspetor-geral do Pentágono concluiu, em um relatório divulgado no mês passado, que as Forças Armadas dos EUA não dispunham mais do pessoal nem das ferramentas necessárias para cumprir sua política de vítimas e danos civis, exigida pela legislação federal.
Um analista percebe um problema
Por quase uma década, segundo autoridades americanas, seus dados indicavam que a escola primária Shajarah Tayyebeh, na cidade de Minab, era uma base militar. A escola fica próxima a edifícios utilizados pela Guarda Revolucionária do Irã, e o local fazia originalmente parte da base.
A investigação constatou, segundo as autoridades, que os responsáveis pela seleção de alvos estavam usando imagens que não eram atualizadas há sete anos. Essas imagens, afirmaram, não mostravam uma escola próxima à base.
Mas, há vários anos, um analista percebeu que o prédio parecia ser uma escola, disseram três autoridades. Esse analista informou outra pessoa, disseram as autoridades. Mas a informação não chegou aos responsáveis pela seleção de alvos, e oficiais de inteligência e militares continuaram a revalidar o local como um alvo legítimo para bombardeio.
Em 28 de fevereiro, as Forças Armadas dos EUA estavam realizando ataques com mísseis contra uma base iraniana adjacente e atingiram a escola. Era um sábado, o início da semana de trabalho no Irã, quando crianças e professores estavam em sala de aula.
“As pessoas precisam ser demitidas e ter suas credenciais revogadas por negligência”, disse Wes J. Bryant, ex-analista sênior de políticas e assessor em guerra de precisão e mitigação de danos a civis no Centro de Excelência em Proteção Civil. “Os comandantes de alto escalão precisam, potencialmente, ser responsabilizados por violação do UCMJ, pois isso foi uma negligência inacreditável”, acrescentou ele, referindo-se ao Código Uniforme de Justiça Militar (UCMJ), o marco legal das Forças Armadas dos EUA, que estabelece penalidades para a morte de civis. “Não há desculpa de ‘névoa da guerra’ aqui”, disse Bryant.
O ataque foi o pior incidente com vítimas civis causado pelas Forças Armadas dos EUA desde 1991, quando uma aeronave stealth americana bombardeou um abrigo antiaéreo civil em Bagdá, matando mais de 400 pessoas, principalmente mulheres, crianças e idosos iraquianos.
Após esse ataque, o governo de George W. Bush culpou o governo iraquiano de Saddam Hussein por colocar civis em risco. Ativistas de direitos humanos afirmaram que os EUA deveriam ter se esforçado mais para garantir que não houvesse civis no local antes de bombardear as instalações.
Um ataque “double tap”
Dezenas de estudantes foram mortos no primeiro ataque à escola em Minab. Outras dezenas foram mortas após um segundo ataque, chamado de “double tap” pelos militares.
O presidente Donald Trump inicialmente atribuiu a responsabilidade pelo ataque ao Irã, embora o país não possua mísseis Tomahawk. “Na minha opinião, com base no que vi, isso foi feito pelo Irã”, disse Trump dias após o ataque. “Eles são muito imprecisos, como vocês sabem, com suas munições. Não têm precisão alguma. Foi feito pelo Irã.”
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Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
Imagens analisadas pelo The New York Times mostraram que vários ataques de precisão atingiram pelo menos seis edifícios da Guarda Revolucionária, além da escola. Quatro edifícios na base foram destruídos, e outros dois apresentavam pontos de impacto no centro de seus telhados, consistentes com tais ataques de precisão.
Mas a rede de inteligência das Forças Armadas dos EUA deveria ser capaz de diferenciar entre uma escola e uma base militar, mesmo que estejam lado a lado, afirmam os críticos.
Alguns questionaram por que o governo Trump não reconheceu, pelo menos, a responsabilidade e não pediu desculpas às famílias que perderam entes queridos, mesmo explicando que uma investigação completa está em andamento.
“Você pode, neste momento, reconhecer que esse erro foi cometido, que fomos responsáveis por ele e que é algo que não queríamos fazer e não queremos repetir?”, perguntou o deputado Adam Smith, democrata de Washington, ao almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central, durante uma audiência no Congresso no mês passado. “Os Estados Unidos não atacam deliberadamente civis”, respondeu Cooper.
noticia por : UOL
