Na floresta do livro infantil “O Lobo de Cueca”, de Wilfrid Lupano e Mayana Itoïzed (Via Lúdica), a vida gira em torno de uma certeza: no alto da colina vive um lobo feroz, de dentes afiados, pronto para atacar a qualquer momento. Há jornais que alimentam o medo, cartazes espalhados pelas árvores, livros sobre como enfrentar o lobo, coaches que oferecem cursos e até uma brigada antilobo. O comércio relacionado prospera, as conversas repetem a mesma narrativa, e a rotina dos habitantes passa a ser organizada em torno de uma ameaça que, na verdade, ninguém parece ter visto de perto.
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Além de uma história muito divertida, é também uma metáfora bastante atual para o ambiente informacional em que vivemos. Quando finalmente o lobo aparece, tranquilo e nada ameaçador, há uma reversão de expectativas: ao invés do perigo tantas vezes narrado, há um sujeito um tanto ridículo de cueca. Em choque, os moradores percebem que a comunidade havia organizado sua visão de mundo a partir de informações enviesadas produzidas, selecionadas e repetidas por diferentes meios de comunicação.
A floresta retratada no livro, assim, nos lembra que vivemos dentro de ecossistemas informacionais que moldam comportamentos, emoções e decisões cotidianas, e nos quais não somos apenas consumidores de informações, mas participantes ativos.
É comum associarmos educação midiática ao uso de celulares, redes sociais ou desinformação, coisas ainda distantes do universo infantil. Mas educar para as mídias significa, antes de tudo, aprender a fazer perguntas sobre qualquer narrativa: quem contou essa história? Como ela foi construída? O que ficou de fora? Que emoções ela desperta? É confiável? Quem ganha quando acreditamos nela? Ancorado na literatura, esse exercício pode começar muito antes que uma criança comece a acessar a internet, desenvolvendo vocabulário, atitudes e valores para que, mais tarde, ela possa elaborar o seu papel e suas responsabilidades no ambiente digital.
A literatura oferece um terreno especialmente fértil para isso, porque cria uma distância segura entre o leitor e o problema. Ao discutir o medo dos animais da floresta, podemos conversar sobre boatos, estereótipos, interesses econômicos, representação e construção da informação de forma lúdica e tangível, adequando os conceitos à faixa etária e sem precisar partir de temas reais e polarizados. A partir da mediação de uma leitura atenta e perguntas reflexivas, crianças aprendem que as mídias não são paisagem neutra: histórias são construídas por alguém, diferentes personagens enxergam o mesmo acontecimento de maneiras distintas e toda narrativa envolve escolhas e produz impactos.
Muitos livros infantis oferecem portas de entrada para competências que hoje reconhecemos como centrais para a educação midiática. Em “A Verdadeira História dos Três Porquinhos!”, de Jon Scieszka e Lane Smith (Companhia das Letras), a narrativa contada pelo lobo convida as crianças a refletirem sobre ponto de vista, enquadramento e o impacto de ouvir apenas uma versão dos fatos. “Teque, teque, muu – vacas que escrevem à máquina”, de Doreen Cronin e Betsy Lewyn (Rocco), abre espaço para discutir intenção comunicativa e persuasão, ao mostrar como diferentes estratégias de comunicação podem ser usadas para convencer um interlocutor. Já a leitura de “Quem Disse?”, de Caroline Arcari e Guilherme Lira (Caqui), pode conduzir a uma exploração de estereótipos de gênero nos anúncios, embalagens de brinquedo ou programas de TV que as crianças conhecem, mostrando como as narrativas frequentemente reproduzem modelos sociais que acabamos por interiorizar.
A literatura sempre foi a primeira porta para aprender a ler o mundo. Hoje sabemos que isso inclui compreender como histórias, imagens e informações circulam, quem as produz e de que forma influenciam nossas escolhas. Formar leitores continua sendo uma das maneiras mais poderosas de formar cidadãos capazes de participar, com autonomia e responsabilidade, da vida em uma sociedade profundamente mediada pela comunicação.
noticia por : UOL




