Anúncio

Cuiaba - MT / 2 de julho de 2026 - 3:03

A soberania nacional se decide na amazônia

O presidente Lula prometeu incluir a questão da defesa nacional em seu programa de governo. O compromisso público ocorreu na sexta-feira (26), no batismo de uma fragata que faz parte do principal projeto de renovação do poder naval brasileiro. Segundo Lula, a nova embarcação, mais do que um navio, exprime “um país que vai assumir, de fato e de direito, o direito de ser soberano”.

Se ele se reeleger e se a defesa da soberania nacional for mais do que uma oportuna proposta de campanha para enfrentar o bolsonarismo, a centro-esquerda terá um encontro marcado com a amazônia.

Ali reside o principal desafio à capacidade do Estado de se afirmar senhor do território que suas fronteiras delimitam. É ali que nossa soberania vem sendo posta à prova —não por uma potência estrangeira ou algum vizinho belicoso, mas pela entramada rede de agentes sem rosto que se convencionou chamar de crime organizado transnacional.

Dois estudos permitem uma visão realista do problema: “Amazon Underworld: criminal economies in the world largest rainforest” (Submundo amazônico: economias criminosas na maior floresta tropical do mundo) —produzido pelas ONGs Amazon Watch, Infoamazonia e Global Initiative Against Transnational Organized Crime— e “O cenário do crime organizado e dos mercados ilícitos no bioma amazônico”, de Leandro Piquet Carneiro e Adriano Bastos Rosas, publicado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso.

Segundo os autores, a amazônia há muito deixou de ser somente um grande problema ambiental; transformou-se em crise de segurança e governança que ultrapassa as fronteiras nacionais. Ali ocorre o que os especialistas chamam de “convergência criminal”, ou seja, a articulação de diferentes atividades ilícitas possibilitada por redes de cooperação entre organizações criminosas. Mineração ilegal de ouro; tráfico de cocaína, animais silvestres e pessoas; extração ilegal de madeira e grilagem de terras compartilham infraestruturas e rotas de trânsito; ganham potência graças à colaboração da bandidagem.

Facções brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, agem em conjunto com grupos armados locais nos países vizinhos e em território nacional. As zonas de tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru servem de rota de fuga e centro de operações do crime organizado.

Calcula-se que tais organizações operem em quase 70% dos municípios amazônicos, espalhando o terror —algumas cidades da região estão entre as mais violentas do país—; agravando o desmatamento e o desrespeito aos direitos dos indígenas e da população pobre.

Nesse território minado não se pode firmar a soberania em bases sólidas. Lográ-la requer clareza de objetivos; políticas que os traduzam; capacidades estatais —incluindo repressivas— que permitam colocá-las em prática.

Demanda também boa diplomacia para obter a cooperação de nações vizinhas, menos equipadas para enfrentar os desafios e mais sujeitas à turbulência política. Supõe ainda colaboração oficial com países consumidores das mercadorias ilícitas. Segurança nacional a serviço da soberania exige bem mais do que retórica mobilizadora e promessas bem-intencionadas.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

noticia por : UOL

LEIA MAIS