Anúncio

Cuiaba - MT / 13 de agosto de 2026 - 5:38

'Ao sentir terremoto, voltei à escola da minha filha e menina de 10 anos morreu em meus braços'


‘Nós, os voluntários, fomos os que carregamos os corpos para fora’, conta Kelly Díaz, que ajuda nos resgates em escola da filha
BBC News Mundo
*Esse texto contém relatos sensíveis
A psicóloga Kelly Díaz acredita que seu corpo continua funcionando, apesar de todo cansaço e tristeza, porque ela está em estado de alerta e convencida de que a vida deve prevalecer.
É assim que ela responde quando questionada sobre como encontra forças para procurar, como voluntária, sobreviventes nos arredores de uma escola que desabou — e após a melhor amiga de sua filha ter morrido em seus braços.
A tragédia ocorreu na escola Nuevo Edén, no sul de Cali, a terceira cidade mais populosa da Colômbia e uma das mais afetadas pelo terremoto de segunda-feira (10/08).
A menina e uma professora foram atingidas pelos escombros e morreram minutos depois. Outras crianças sofreram ferimentos graves.
Díaz conta que, na manhã de segunda-feira, deixou a filha na escola. Porém, quando estava voltando para casa, sentiu um tremor.
“Rapidamente, ele foi ficando muito mais forte. Aquela intensidade era incomum. Corri de volta para a escola, pensando apenas que minha filha poderia estar apavorada”, lembra.
Quando chegou na pequena escola, com cerca de 14 crianças em 4 ou 5 salas de aula, a cena era “devastadora”.
“Havia duas pessoas caídas no chão em meio aos escombros. Uma delas era a melhor amiga da minha filha, de 10 anos. A outra era a professora dela. Entrei imediatamente, pois tenho treinamento em primeiros socorros”, relata.
“Primeiro, verifiquei como estava minha filha. Depois, chequei como estavam os outros alunos, verificando seus sinais vitais.”
“Então, fui até o chão para ajudar a outra menina. Havia uma poça de sangue. Ela tinha traumatismo craniano. Ela e a professora apresentavam sinais vitais, mas nenhuma ajuda chegava.”
“Naquele momento, não sabíamos que a catástrofe estava acontecendo em toda a cidade.”
As ambulâncias não apareciam. Os gestores da escola estavam em choque. Alguns voluntários, então, assumiram a missão de resgate.
“Se tivéssemos esperado pelas ambulâncias, teríamos ficado lá até o amanhecer.”
“Tudo o que podíamos fazer era esperar que os pais viessem buscar seus filhos machucados enquanto outros de nós cuidávamos dos feridos.”
“Nós, os voluntários, fomos os que carregamos os corpos para fora.”
A menina gravemente ferida tinha leves movimentos e reações, mas não se sabe se estava consciente.
“Ela morreu em meus braços. Depois, a mãe dela chegou.”
A tragédia em Cali
Segundo o prefeito de Cali, Alejandro Éder, até quarta-feira (12/08), 74 pessoas eram registradas como mortas e 150 como desaparecidas na cidade.
Com mais de 50 edifícios colapsados e outros tantos evacuados devido ao risco de desabamento, a capital do Valle del Cauca é uma das áreas mais atingidas pelo terremoto, que deixou pelo menos 265 mortos em todo o país.
A busca por sobreviventes continua sem parar.
À noite e nas primeiras horas da madrugada, quando o barulho é menor, equipes de resgate e voluntários intensificam seus esforços para captar sinais vitais entre os escombros.
‘É o povo que salva o povo’
Kelly Díaz é uma das muitas voluntárias mobilizadas por toda a cidade.
Em paralelo ao trabalho das autoridades e de equipes oficiais de resgate, Díaz enfatiza a importância da ajuda da população.
Especialmente em lugares como a escola de sua filha — o único prédio impactado em um conjunto de quarteirões que parecem intactos.
“É nesses lugares onde nem os recursos nem as equipes de resgate chegam, nos menores, que você realmente percebe a magnitude de toda a dor que sofremos”, diz a psicóloga.
Voluntários como ela cavam com as próprias mãos, removem escombros, distribuem comida e água e organizam centros de acolhimento.
“É o povo que salva o povo”, diz a psicóloga.
Juan A. Carabalí é outro exemplo disso.
Juan A. Carabalí viajou para Cali para ajudar nos resgates
BBC News Mundo
Ele chegou a Cali na terça-feira (11/08) de manhã, vindo do município de Suárez, a cerca de 70 quilômetros dali.
“Não dormimos a noite toda. O trabalho tem sido intermitente devido aos riscos que enfrentamos, mas estamos nos aproximando de possíveis sobreviventes”, diz Carabalí.
Em meio ao barulho de máquinas pesadas removendo os escombros, Kelly Díaz reflete sobre a persistência de pessoas como ela e como Juan A. Carabalí.
“Não paramos porque só pensamos na dor das famílias. É isso que nos mantém firmes.”
Agora no g1
source
Fonte: G1

LEIA MAIS