Anúncio

Cuiaba - MT / 14 de agosto de 2026 - 9:06

Carla Madeira navega o caos do luto e se revolta contra a homofobia no livro 'Quando'

Carla Madeira passou por anos de perturbação. Enquanto escalava até o topo da lista de autoras mais lidas do Brasil, a mineira lidava com alguns de seus mais intensos lutos —por sua mãe, por seu psicanalista, pela amiga e parceira com a qual abriu sua agência de publicidade.

Desilusões assim podem levar à paralisia, ao silêncio, ao abismo. Na escritora de 61 anos, provocou um novo tipo de processo criativo, do qual ela decidiu não fugir. Foi voltando de uma visita dura a sua sócia Simone Moreira —que fazia quimioterapia para enfrentar o repentino câncer no pâncreas que a matou há três anos— que Madeira se lançou à escrita.

“Cheguei em casa no meio daquela loucura toda, abri o computador e comecei o que seriam as primeiras palavras do livro novo”, conta a autora, em entrevista por vídeo de sua casa em Belo Horizonte. “E o processo foi assim, por muito tempo, muito caótico.”

Essa pausa de mil compassos culmina agora na publicação de seu quarto romance, “Quando”. “Todo corpo perturbado quer produzir sentido. O processo de encontro com a linguagem é um mecanismo de retomar uma certa regularidade, certo equilíbrio”, diz.

“Quando” é o primeiro livro lançado por Madeira depois que ela chegou ao posto de ficcionista mais vendida da literatura brasileira, em 2023 —hoje, já fez circularem 1,4 milhão de exemplares de seus romances pela editora Record, sendo que 784 mil foram do arrasa-quarteirão “Tudo É Rio”, à frente de “Véspera” e “A Natureza da Mordida”.

Diz que o assombro do sucesso não afetou sua escrita. O turbilhão na vida pessoal ressoava bem mais alto. “Pensei, realmente vou entrar para o meu mundinho e que tudo o mais vá para o inferno.”

“Talvez eu esteja vivendo [a ansiedade com a recepção da obra] agora, com o livro entregue, porque existe uma medida de sucesso mercadológica que está posta. Mas, dentro de mim, esse livro já é um sucesso. Não topei ficar num lugar confortável e não fugi da experimentação que queria fazer.”

“Quando” é seu livro mais polifônico. Digressivo, como ela define. Suas vozes cobrem diferentes ângulos dentro de uma família marcada pelo trauma —uma narração começa na boca de uma personagem e termina na de outra, e os capítulos saltam com fluidez do presente ao passado.

A trama foi cerzida depois, já que Madeira passou um bom tempo ouvindo as vozes que decantaria no papel. Escutava rádio-patrulha para pegar a embocadura policial. Montou rodas de crianças para ver como se comunicavam —um dos primeiros sons que semearam “Quando” foi a fala angustiada de um menino que sabia que tinha algo errado na sua família, mas não tinha como decodificar aquilo em palavras.

A história parte de uma mãe à beira da morte que aguarda a volta do filho para casa. Viridiana tem certeza de que não tem muito futuro adiante, mas que o reencontro com Tito mudaria o sentido pregresso de tudo. Quando ele retornasse, diz a mãe, “sua vida terá sido outra, porque há momentos capazes de mudar o que foi vivido”.

Na adolescência, Tito cometeu um ato brutal de violência homofóbica —a mãe o denunciou à polícia e, preso, ele mesmo experimentou a brutalidade dos outros detentos. Em meio à raiva e ao choque, ele se afasta da família, e a mãe passa os 20 anos seguintes em compasso de espera.

Madeira só foi intuir de onde tirou esse período de tempo ao se reaproximar da “Odisseia” de Homero, agora na boca do povo. A espera interminável de Viridiana pelo filho é pontuada com citações quase diretas à de Penélope por Ulisses, que demora também duas décadas —a matriarca ia “tecendo e desmanchando a longa espera”, bem como a personagem grega com seus tecidos.

Em outra rima homérica com o filme de Christopher Nolan, a escritora quer perscrutar como a engrenagem da violência se reproduz ao longo das gerações.

Coletivamente, diz ela, “estamos numa numa coisa muito destrutiva no nível do preconceito, do racismo, da violência de gênero, do clima, das guerras”. O que a intriga é o fato de que “individualmente, a gente está querendo outras coisas”. Se ninguém quer, por que tantos brigam?

Viridiana traz uma culpa ancestral pela agressão do filho. A certa altura, diz que, quando Tito decidiu espancar um menino afeminado na sede por uma vingança difusa, “eu estava lá, meus pais, os pais dos meus pais, os pais dos pais dos meus pais… Estávamos todos lá”. “Tudo isso vem de muito longe.”

A protagonista está confessando a seu Barros, vizinho idoso que, em uma das passagens mais tocantes do romance, conta que passou a vestir as roupas da esposa morta para sentir menos saudade dela. Isso não impediu que ele, também, fosse agredido por moleques do bairro numa ida ao mercado.

Essa violência, diz Madeira, tem a ver com o quanto “a nossa sociedade não admite que o feminino se misture, se borre, que as coisas deixem de ser ou do homem ou da mulher”.

Durante a entrevista, ela destaca um trecho que diz conter a pergunta fundamental do livro. “Por que o senhor acha que eles se sentem tão agredidos, por que sentem tanta raiva?”, quer saber Viridiana, se lembrando no fundo de seu filho. “Não sei ao certo”, responde seu Barros, “mas alguma coisa eles não aprenderam”.

A homoafetividade também aparece, costurada com esmero e delicadeza, em uma relação entre duas meninas do passado da família. Tem a ver, diz a autora, com uma outra questão íntima sua —o carinho por sua filha Ana, que se relaciona com mulheres.

“Nos últimos anos, conviver mais com isso, com as amigas, com a namorada dela trouxe para mim [a lesbianidade] de uma maneira muito mais bonita, mais comovente, mais explícita. E também, como mãe, um certo temor da violência que pode vir com isso.”

No romance, a homossexualidade traz mesmo consigo um perigo constante, fruto de anos de patriarcalismo intransigente, mas aparece também na ternura de garotas que se apaixonam entre canções e melodias compostas num sítio, com os dedos na viola, contemplando a lua cheia.

Carla Madeira, um dia, se aventurou a sério como cantora. Era coisa de juventude, diz, meio tímida. De vez em quando ainda se arrisca sem compromisso, o que se comprova em vídeos que pipocam nas redes sociais com a escritora flagrada de violão na mão.

Se o processo de escrever “Quando” se alimentou da confusão do luto, também se nutriu de lembranças afetivas como essa, com o vinil riscando uma vida de acordes simples. A tragédia daquilo que foi perdido sempre parece engolir tudo com sua bocarra. Mas Madeira se mostra sempre atenta à felicidade —essa intrusa.

noticia por : UOL

LEIA MAIS