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Cuiaba - MT / 8 de agosto de 2026 - 13:23

Como mulheres guarani aboliram cacicado e usaram escultura de vulva contra violência doméstica em SP

Eva já não conseguia mais dormir, ir ao banheiro ou comer sem ser restringida pelo marido ciumento, com quem morava no território indígena Tenondé Porã, em Parelheiros, no extremo-sul de São Paulo.

Sem saída, pediu abrigo para ela e para o filho mais novo na casa de Jerá Guarani, 45, liderança da aldeia Kalipety, uma das 17 do Tenondé Porã.

Enquanto Eva, na cozinha comunitária, passava um café para a reportagem, Jerá lembrava que esse acolhimento não seria possível na terra indígena pouco mais de dez anos atrás. Naquela época, as mulheres raramente falavam sobre a violência que sofriam e, quando falavam, eram ignoradas.

Foi necessário um longo processo de luta por transformação, que incluiu desde o fim do cacicado na aldeia até a exibição de uma escultura de vulva na casa de reza.

Quando criança, Jerá viu o território onde subia em árvores e tomava banho de rio virar um espaço superlotado, com pobreza, alcoolismo e violência.

“De repente, a mulher podia aparecer com olho roxo, dente quebrado, ficar doente, depressiva, reclamar que era estuprada e violentada, mas nada acontecia”, recorda.

Aos 13 anos, Jerá chegou perto de se casar, como era comum à época. Mas tinha a impressão de que, se virasse esposa e mãe, ficaria limitada à aldeia.

“Preferia a morte”, conta, sobre como enfrentou a mãe e o cacique para desistir de oficializar o noivado.

Anos depois, brigou com o ex-noivo, uma liderança política da terra indígena, porque ele quebrou o maxilar da atual esposa.

Fazer com que as mulheres fossem ouvidas, cuidadas e respeitadas como manda a tradição guarani quase pareceu impossível para Jerá. Culturalmente, as mulheres são sagradas porque são responsáveis pelos espíritos novos, fazendo a manutenção da vida.

“Pensava: Acho que não vai acontecer, estou viajando”, diz, enquanto relata dias de crises de ansiedade.

Antes da demarcação de cerca de 1.600 hectares, em 2016, Tenondé Porã tinha pouco mais de 26 hectares. Após a ditadura militar, chegou a ser uma das mais populosas do país. Muitos guarani mbyá migraram do sul para o território devido à repressão.

Com eles, porém, chegou à terra uma herança de hierarquia militar e patriarcal. Além disso, a superpopulação foi acompanhada por escassez de recursos, como alimentos, e gerou maior uso de bebida alcoólica entre os indígenas.

Esses fatores agravaram a violência contra a mulher, algo que Jerá conhecia desde criança. Ao catar piolho na mãe, como os mbyá chamam fazer cafuné, via em seu couro cabeludo queloides de uma surra que ela levara do pai.

“Era assim: o cacique chega na casa de uma mulher e fala: ‘posso arrumar um emprego para seu marido se você sair comigo’. Ou uma guarani vem falar para mim: ‘fulano vai me tirar do emprego porque eu não quis sair com ele’. Essas coisas eram a toda hora e aí falamos: ‘tem que fazer alguma coisa aqui, não dá mais’”.

O primeiro passo foi intensificar a luta pela demarcação do território. As mulheres chegaram ao consenso de que as famílias precisavam de mais espaço ou iriam adoecer.

Enquanto isso, aproveitaram para se infiltrar no comando masculino da aldeia. “Inventamos uma história de fazer um Conselho Guarani e levamos a proposta assim: se a gente criar um grande conselho na aldeia, vocês podem ir às reuniões importantes fora dela e, na volta, não precisam lidar com briga de casal ou vizinhos disputando galinha”. Os homens adoraram a proposta, diz Jerá.

Mas o conselho, criado em 2009 com mais de 20 pessoas, logo ficou restrito ao cacique, vice, três braços direitos e Jerá.

Em uma reunião, diz, uma mulher mais velha acusou o cunhado do então cacique de estuprá-la enquanto estava bêbada e sem poder se mover. Depois, ela teria sido agredida. Segundo Jerá, o cacique respondeu que já havia avisado às mulheres que não deveriam andar à noite sozinhas.

Isso a levou a divulgar direitos individuais e chamar mais integrantes para o conselho. “A gente começa a ter esse interesse de outras pessoas vindo aos poucos, e as mulheres começaram a entender que é muito mais fácil falar de um estupro com outra mulher do que com homens.”.

Quando o conselho se consolidou, foi possível falar de saúde indígena e da violência. Em 2014, um ano após Jerá fundar a aldeia Kalipety e outras mães indígenas abrirem seus próprios espaços, o último cacique do Tenondé Porã deixou o cargo.

Foi Jerá quem pressionou o teste de um ano sem cacique no território. Hoje, o conselho reúne as 17 aldeias e tem mais de 40 lideranças, a maioria mulheres, sem caciques.

Kerexu Mirim, 30, liderança da aldeia Krukutu, parte do Tenondé Porã, diz que a situação melhorou quando as mulheres passaram a ser ouvidas. Antes, afirma Luciana Iwá Veríssimo, 41, uma das líderes da Takua Ju Mirim, era Jerá quem mais se impunha.

“As mulheres se levantaram e hoje caminham com os homens”, diz Kerexu.

As lideranças femininas começaram a organizar encontros para conscientização sobre a violência doméstica.

Em 2021, uma intervenção encenou em áudio agressões que ocorriam quando homens chegavam bêbados em casa. É possível ouvir a mulher gritando, chorando, e o filho pedindo para que o pai pare. Uma vizinha também interrompe. O choro da mulher aumenta.

Mais de 60 homens ouviram a encenação deitados no escuro da casa de reza. Ao final, mulheres quebraram um banco ao lado deles. Muitos choraram, diz Jerá.

“Esses momentos fortes curaram muitos guarani e levaram eles a pedir desculpa e falar ‘Não vou fazer isso nunca mais’, com arrependimento profundo”, diz a líder indígena.

Com um coletivo de lésbicas, uma escultura de vulva e calcinhas foram expostas na casa de reza para mostrar que as mulheres também são sagradas. Outra vez, os homens lavaram calcinhas no rio.

Durante as reuniões, as mulheres compartilhavam o que já haviam sofrido. “Eles iam preparando nossa comida e a gente ia conversando”, conta Kerexu. “Isso também foi cura para mulheres mais velhas, que começaram a identificar as violências de que não podiam falar antes.”

Em 2022, a delegada Monique Lima, da 6ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), levou um projeto de conscientização ao território e encontrou mulheres interessadas na Lei Maria da Penha.

Monique notou que havia anos a unidade não recebia denúncias de mulheres indígenas. “Falei: ‘Não é porque a violência não acontece lá, é por causa da distância, do fator cultural, da língua. Tudo está sendo barreira’”.

Jaqueline Kambiwá, representante da Anmiga (Articulação Nacional das Mulheres Indígenas), afirma que, apesar de importante, a Lei Maria da Penha não atende às especificidades da população. A organização trabalha em parceria com o Superior Tribunal de Justiça para criar uma versão comentada da lei.

Monique começou a levar unidades móveis da delegacia da mulher até o território indígena. Nos últimos quatro anos, recebeu em média de 10 a 12 registros por ano. Ainda é pouco, afirma.

Jerá diz que as mulheres conseguem buscar medidas protetivas, homens são expulsos das aldeias e, quando necessário, encaminhados para a prisão —mesmo se for um pajé, como já aconteceu.

noticia por : UOL

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