Como o resultado das midterms afeta a eleição presidencial dos EUA em 2028

As eleições de meio de mandato de 2026, nos Estados Unidos, devem impor limites à capacidade de Donald Trump de implementar sua agenda, mas não necessariamente alterar os rumos de seu governo. Essa é a avaliação do historiador Victor Davis Hanson, para quem a concentração de poderes na presidência americana reduz os efeitos práticos de uma derrota legislativa.
Em entrevista ao comentarista Tony Kinnett, do Daily Signal, Hanson lembrou que, desde 1900, o partido que ocupa a Casa Branca perdeu cadeiras na Câmara dos Representantes em 90% das eleições de meio de mandato. No Senado, as perdas ocorreram em aproximadamente 75% a 80% dos casos. Portanto, o resultado de 2026 estaria dentro de uma tendência histórica.
Para Hanson, porém, o aspecto mais importante é a capacidade de um presidente de governar mesmo sem maioria no Congresso. Ele cita os governos de Bill Clinton e Barack Obama, que sofreram derrotas expressivas nas eleições legislativas, mas mantiveram capacidade de implementar suas políticas.
Clinton, por exemplo, ordenou o bombardeio da Sérvia em 1999 sem autorização específica do Congresso e negociou acordos com a oposição. Obama, por sua vez, recorreu a decretos executivos para avançar em sua agenda. Na política externa, Hanson critica especialmente a reaproximação com Cuba, o acordo nuclear com o Irã e o Acordo de Paris sobre o clima.
A experiência dos dois ex-presidentes demonstra, segundo o historiador, que a perda de maiorias legislativas não impede necessariamente o exercício do poder presidencial. Ainda assim, uma maioria democrata no Senado dificultaria a aprovação de indicações de Trump para os tribunais federais, inclusive para a Suprema Corte. Na Câmara, Hanson prevê uma intensificação de investigações, intimações e tentativas de impeachment.
O presidente dependeria, assim, de decretos executivos e do poder de veto para preservar parte de sua agenda. Hanson considera essencial que os republicanos mantenham a unidade no Senado e impeçam que os democratas alcancem 60 cadeiras, o que ampliaria sua capacidade de superar obstáculos legislativos.
O historiador também acredita que uma vitória expressiva pode levar os democratas a exagerar na reação política. Como exemplo, cita a tentativa de impeachment de Clinton, em 1998, que acabou sendo impopular. Segundo Hanson, esse tipo de excesso pode favorecer os republicanos na disputa presidencial seguinte.
Ele lembra que Clinton recuperou popularidade enquanto George W. Bush e Al Gore disputavam a Presidência em 2000. Algo semelhante teria ocorrido com Obama em 2016: enquanto Trump e Hillary Clinton protagonizavam uma campanha marcada por ataques mútuos, a imagem do então presidente se beneficiava de sua relativa ausência do debate.
A principal preocupação de Hanson, contudo, está nas consequências das eleições de 2026 para a escolha do candidato democrata em 2028. Ele considera que a eventual vitória de candidatos identificados com o socialismo, como Abdul El-Sayed e James Talarico, pode fortalecer a ala mais radical do partido.
Nesse cenário, o historiador considera improvável que os democratas escolham um nome moderado como Josh Shapiro. Gavin Newsom, governador da Califórnia, seria um exemplo de político capaz de adaptar seu discurso às demandas da esquerda. Hanson também menciona o senador Jon Ossoff como representante dessa tendência.
Para o historiador, uma eventual vitória democrata em 2028 poderia abrir caminho para mudanças institucionais profundas: enfraquecimento do Colégio Eleitoral, criação de novos estados, fim da obstrução parlamentar no Senado e ampliação do número de ministros da Suprema Corte. Ele também prevê a retomada de políticas de diversidade, equidade e inclusão e de medidas de redução do financiamento policial.
Na avaliação de Hanson, portanto, a disputa de 2028 poderá ultrapassar as divergências tradicionais entre republicanos e democratas e colocar em jogo a própria configuração institucional dos Estados Unidos.
noticia por : Gazeta do Povo