Para uma vítima de violência sexual, relatar os detalhes da humilhação física é reviver a dor. Muitas desistem de processos porque expor a violência é sofrer de novo, agora diante de outros.
Ilana Gritzewsky foi. Enfrentou o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, no último dia 23, para contar o que viveu. “Eles me tocaram e abusaram sexualmente. Fui espancada e mutilada antes de perder a consciência. Acordei seminua, com sete terroristas em pé sobre mim, sem saber o que havia acontecido comigo naqueles momentos perdidos.”
O quadril quebrado. A mandíbula quebrada. Cinquenta e cinco dias de cativeiro. “As pessoas veem meu rosto e pensam que estou livre. Mas liberdade não é um interruptor. O trauma não desaparece quando você é libertada.”
Como sobrevivente, ela falou também em nome de outras mulheres, mortas e mutiladas.
Na mesma sala, sentada à sua frente, estava Reem Alsalem, relatora especial sobre violência contra mulheres e meninas. Formada em Oxford, ela tem forte atuação em questões de gênero, como o direito das mães, os abusos do Talibã e os riscos da mudança climática para mulheres. Um currículo invejável a serviço de uma causa impecável.
Enquanto Gritzewsky falava, Alsalem olhava para uma tela, impassível, inexpressiva. A atmosfera no salão era tensa. Mesmo aqueles que se recusavam a ouvir sobre as atrocidades do Hamas não conseguiram ficar indiferentes.
“Por favor, olhe para mim”, teve que pedir Gritzewsky, com voz trêmula. Alsalem não olhou. Continuou imóvel, desdenhosa, os olhos baixos.
A relatora é a mesma que afirmou publicamente que nenhuma investigação independente constatou que estupros ocorreram em 7 de outubro, ignorando todas as evidências: vídeos gravados pelos próprios agressores, documentos forenses, relatos de testemunhas e sobreviventes, conclusões da Human Rights Watch e até documento da própria ONU que concluiu haver “informações claras e convincentes” de violência sexual.
Diante de Alsalem, estava uma prova viva. Mas, no seu relatório sobre violência contra mulheres, as mulheres de 7 de outubro não existem. Quando se trata de judias, o apoio vacila e morre. É a hipocrisia institucional em sua forma mais exposta.
O episódio pareceu terrivelmente simbólico de todas as outras vezes em que o sofrimento judaico é visto como sem importância ou, de algum modo perverso, merecido. O horror diante do sofrimento dos civis de Gaza e a desaprovação ao governo de Binyamin Netanyahu —ambos legítimos— transformaram-se em certos ambientes numa hostilidade gratuita a qualquer israelense, a qualquer judeu. Podem chamar de “antissionismo”. Não é. É a velha recusa em reconhecer qualquer sofrimento judaico quando ele atrapalha a narrativa.
No fim, Alsalem respondeu. Referiu-se à violência em 7 de outubro contra mulheres e meninas israelenses, sem mencionar explicitamente violência sexual. Depois deixou rapidamente a sala, de cabeça baixa.
O Dia Internacional das Mulheres 2026 tem como tema “Direitos. Justiça. Ação. Para todas as mulheres e meninas”. Todas as mulheres e meninas. Desde que se aceite a premissa: algumas mulheres contam. Outras são detalhes geopolíticos.
A ONU foi fundada para que o mundo nunca mais desviasse o olhar diante do sofrimento humano.
Reem Alsalem desviou o olhar.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
noticia por : UOL




