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'Não podia calar': a luta de uma enfermeira contra o suicídio na Argentina

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'Não podia calar': a luta de uma enfermeira contra o suicídio na Argentina

A fome e o peso invisível da economia

Sempre que visito as escolas, proponho uma dinâmica em que os jovens escrevem cartas anônimas desabafando o que sentem. Guardo caixas inteiras com esses relatos. Há uma carta que nunca me sai da cabeça: um garoto escreveu que queria morrer porque havia percebido que, quando a mãe dele dizia que já tinha comido ou que não estava com fome, era para deixar o prato para ele. Ele escreveu: “Sou apenas mais uma boca para alimentar”.

As pessoas acham que adolescente só quer saber de festa, que não enxerga a realidade porque não trabalha. Isso é uma mentira cruel. O jovem sente o desespero financeiro da família na pele. E o pior: ele é um refém, porque depende inteiramente dos adultos para ter o que comer, o que calçar e materiais para estudar. Quando vê que os pais não dão conta, ele se culpa.

A crise econômica na Argentina e a fome têm papel devastador nisso tudo. Digo isso por experiência própria. Durante muito tempo eu tive três empregos como enfermeira para sustentar meus quatro filhos. Passava cinco dias seguidos fora de casa, emendando plantão diurno, noturno e fins de semana. Destruí a minha coluna — já passei por duas cirurgias — de tanto trabalhar. Eu achava que, quando meus filhos crescessem, nós finalmente teríamos aqueles domingos de mesa cheia reunidos. E foi justamente no auge dessa minha ausência forçada pelo trabalho e pela pandemia que o Tadeo se foi.

Hoje, aos 46 anos, continuo trabalhando exaustivamente e vejo que um salário inteiro mal cobre o aluguel de uma casa simples. Minha filha mais nova tem 15 anos, é uma aluna brilhante, tira notas 9 e 10, e já está contando os dias para fazer 16 anos e tentar uma vaga no McDonald’s. Ela quer trabalhar porque vê a minha luta e sabe que tudo falta. Isso se repete em milhares de lares: os jovens largam os estudos para buscar qualquer renda, entram no subemprego precoce e ficam presos em um ciclo de desespero.

noticia por : UOL

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