Harden também convocou o sexólogo Magnus Hirschfeld para prestar depoimento sobre a sexualidade de von Moltke, na condição de especialista. Em 1897, Hirschfeld havia fundado em Berlim o Comitê Científico-Humanitário, a primeira organização do mundo dedicada aos direitos dos homossexuais. Sua avaliação, baseada nas observações feitas no tribunal, foi a de que von Moltke tinha um lado feminino e apresentava “homossexualidade inconsciente”. Harden foi absolvido.
As teorias de Hirschfeld sobre gênero e sexualidade revolucionaram o entendimento sobre o tema, e o julgamento as projetou para um público mais amplo. Para ele, a orientação sexual era um traço biológico inato e natural, e não uma escolha de estilo de vida, uma doença ou um crime. “De certa forma, é uma versão inicial do conceito de ‘nascido assim’, que diversos movimentos emancipatórios defenderiam depois”, disse Frederik Doktor, historiador da Universidade Europeia de Flensburg.
Parte importante da história queer
Muito antes do auge da República de Weimar (período entre 1919 e 1933, anterior à ascensão do nazismo, marcado por instabilidade política, crise econômica e intensa efervescência cultural), Berlim já havia conquistado reputação como capital das festas na Europa, com uma cena queer vibrante.
Em um período em que atos sexuais entre homens eram criminalizados pelo parágrafo 175 do Código Penal alemão, a cidade mantinha inclusive uma unidade policial especial — não para impedir atividades homossexuais, mas para proteger membros de alto escalão da sociedade contra possíveis chantagistas.
O caso Eulenburg teve consequências não intencionais para a cena gay berlinense, segundo Doktor. “No fim das contas, levou a mais homofobia, à ideia difundida de ‘degeneração’, de homossexuais definidos como homens afeminados, e a debates sobre o endurecimento do parágrafo 175 — que os nazistas décadas depois, em 1935, implementaram — e, por fim, sobre a liberdade dos homens queer de viver sua sexualidade”, disse à DW.
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