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Cuiaba - MT / 22 de maio de 2026 - 20:09

Você está muito bem para sua idade

Você está muito bem para sua idade. Sempre que uma de nós escuta essa frase, o cérebro faz uma tradução instantânea. Por trás desse pretenso elogio a gente sabe perfeitamente que a sentença se completaria com o silencioso e cruel “…nem parece que já está tão velha”. É o susto alheio diante de uma expectativa frustrada. Afinal, as pessoas ainda esperam que, ao cruzarmos a fronteira de uma certa década, adotemos o figurino padrão: a senhora enrugada, conformada, vestida numa estampa florida, desenhada para apagar qualquer traço de sexualidade.

Tenho 54 anos. Faço parte de uma geração de mulheres que se cuida regularmente. Temos o bônus do acesso à reposição hormonal, que mantém o raciocínio nos eixos, dermatologistas que combatem a gravidade, tratamentos estéticos de ponta e todos os médicos que a nossa independência pode bancar. O resultado é óbvio. A maioria das mulheres nessa faixa e com dinheiro na conta hoje partilha dessa mesma “nova aparência”. Não somos sobreviventes de um milagre; somos o novo padrão de 50 e poucos anos.

Mas o que realmente fascina nessa engrenagem de preconceito etário é notar de onde ele vem com mais força. Não necessariamente dos homens, mas sim de mulheres mais jovens. É um fenômeno curioso. Sempre fui fascinada pelas mais velhas do meu entorno, tanto pessoal quanto profissional. Era a rodinha onde eu queria estar —ainda quero. As ouvia com respeito quase devoto. Queria decifrar o mistério, queria aquela bagagem. Na nossa vez de estar do lado de cá, no entanto, encontramos uma barreira geracional esquisita. Há um contingente na casa dos 30 anos que exala arrogância.

Elas parecem convictas de que inventaram a roda, o mercado de trabalho, a liberdade sexual e as regras do mundo. Acham que sabem tudo sobre relações afetivas, dores e traumas, como se a complexidade da angústia humana tivesse sido patenteada ontem. Munidas de um jargão terapêutico de prateleira, tratam qualquer frustração amorosa ou conflito de ego como uma descoberta clínica inédita, uma exclusividade da qual são pioneiras. Somos olhadas por elas como seres deslocados do tempo, criaturas analfabetas diante dos novos códigos sociais e que, portanto, deveríamos abrir espaço na fila por pura obsolescência.

Só que, para o desespero dessa turma que acha que a vida se resume a um tribunal de redes sociais, o nosso bem-estar não se limita à derme estimulada pelo colágeno industrial. O que muitas vezes desconcerta é o que fazemos com o nosso tempo. As nossas atividades não cabem no roteiro da aposentadoria existencial. Nós trabalhamos no topo da nossa capacidade, produzimos, lideramos, viajamos, transamos e, principalmente, temos uma visão de mundo equilibrada, que a pressa, o dogmatismo e o puritanismo dos 30 anos ainda não permitem ter.

O “você está muito bem para sua idade” que essas meninas soltam, com um misto de condescendência e espanto, é o sintoma de um choque. Se esquecem de que o tempo passa. Ontem mesmo, eu tinha os 30 anos delas, equilibrando inseguranças, mas sem a soberba de achar que a história começou comigo. Fomos nós, nessa geração de 50 e 60 anos, que inauguramos uma nova realidade, onde a maturidade ganhou outra cara, outra postura e, sejamos honestos, a bunda, outra firmeza. Subvertemos o roteiro do envelhecimento compulsório e desfrutamos da leveza de entender que o mundo está em constante evolução e que a nossa cabeça está acompanhando tudo isso na mais absoluta vanguarda.


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noticia por : UOL

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