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Cuiaba - MT / 27 de julho de 2026 - 23:28

Novos patrimônios da humanidade, teatros da amazônia marcam exploração dos seringais

Símbolos arquitetônicos, culturais e históricos da exploração dos seringais na amazônia para abastecer os mercados mundiais com a borracha, o Teatro Amazonas, em Manaus, e o Teatro da Paz, em Belém, são os primeiros bens materiais a receberem reconhecimento de patrimônio cultural mundial na região pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Eles foram anunciados durante o 48º comitê internacional do órgão em Busan, na Coreia do Sul.

O anúncio reconhece as duas construções centenárias e colossais, erguidas e inauguradas no século 19, como conjunto de um período de “modernização urbana e inserção da região amazônica em circuitos comerciais e globais”, segundo o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

A partir de agora os imóveis, uns dos primeiros na América Latina e que estão preservados até hoje, passam a figurar juntos na lista da Unesco sob a designação “teatros da amazônia”. Os dois teatros são anteriores ao Teatro Municipal de São Paulo.

Segundo o professor de história da amazônia da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Bruno Miranda Braga, apesar do estilo arquitetônico e grande parte dos materiais, obras e traços artísticos terem sido importados de diferentes locais da Europa, os dois teatros mesclam o imaginário e materiais amazônicos em suas estruturas, tornando-os únicos em todo o mundo.

“Falar dos teatros Amazonas e da Paz é falar de uma síntese da inserção da própria amazônia na história da arte global”, afirma o historiador.

“Eles dizem mais da nossa brasilidade, realidade amazônica do que se supõe à primeira vista quando se vê aqueles dois edifícios em estilo europeu, que mesclam diferentes estilos arquitetônicos do século 19, especialmente o clássico e o neoclássico.”

Tombados como patrimônio histórico nacional na década de 60, eles preservam grande parte da arquitetura e decoração originais. Há o aço de Glasgow, na Escócia, centenas de lustres e mármore de Carrara e estátuas da Itália enfeitando escadas, além de elementos decorativos revestidos com folhas de ouro e pedras portuguesas.

Além do que é europeu, destaca Braga, existem materiais que só se encontram na amazônia na estrutura.

“Todo mundo sempre foca nos cristais venezianos, nos mármores que vieram da Europa, mas madeiras nobres da Amazônia estão na composição de vários pisos e molduras de ambos teatros”, disse.

Ele cita ainda a pedra-jacaré, que faz parte da composição, que é o arenito Manaus, uma rocha genuinamente da região do rio Negro.

Superintendente do Iphan-AM, Beatriz Calheiros diz que durante o processo houve um esforço técnico concentrado para esclarecer questões estruturais e históricas da amazônia.

Embora o Teatro da Paz tenha sido construído no período do Brasil Império e o Teatro Amazonas na República, a história deles se relaciona com o período da borracha e o estado do Grão Pará, com dinâmicas diferentes do período colonial do resto do Brasil.

“Se o Brasil não conhece a amazônia, o mundo conheceu a amazônia a partir dos viajantes e de muitos outros que passaram por aqui, não só brasileiros. É muito desafiador contar nossa história, ainda mais numa língua estrangeira”, diz Calheiros.

Democratizar o acesso

Se no passado foram projetados para atender a elite econômica, com artistas e companhias internacionais, o historiador Braga diz que hoje há um esforço em democratizar o acesso aos dois teatros, com algumas apresentações a preços acessíveis.

Um dos principais maestros da amazônia, forjado artisticamente na cultura popular do boi-bumbá de Parintins, Neil Armstrong, conta que quando começou a carreira tocando violão e formando grupos musicais tinha um sonho: se apresentar no Teatro Amazonas.

Parecia impossível a uma pessoa nascida no baixo rio Amazonas porque, naquela ocasião, diz, o palco era voltado para o erudito e artistas de fora do estado. Nos anos 2000, já liderando a orquestra de violões do Amazonas, Neil fez apresentações no palco de óperas.

Em 2010, a orquestra de violões conseguiu sua primeira apresentação com casa lotada ao juntar o erudito e o popular numa apresentação do cantor David Assayag interpretando toadas dos bois Caprichoso e Garantido. “Hoje, sou um dos principais maestros do Teatro Amazonas. Para mim, quando penso, é uma loucura. Como uma virada de 360 graus lá do início.”

A cantora indígena Djuena Tikuna, que produz seus próprios álbuns, canta em língua materna e se apresenta em palcos internacionais, foi a primeira indígena a subir no palco do Teatro Amazonas como protagonista da apresentação e produção própria, no ano de 2017.

“Foi um momento histórico. A gente tem que protagonizar ali”, conta ela. “O teatro foi construído com sangue indígena, foi na época da borracha, os indígenas estavam sendo escravizados para ter essa construção. Então, a gente precisa ver essa reparação. A arte e a música indígena têm de estar naquele palco também”.

noticia por : UOL

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