Um projeto criado pelo Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb) usou inteligência artificial para recriar retratos de pessoas escravizadas a partir de documentos históricos do Brasil colonial. Ao resgatar histórias apagadas e transformá-las em documentos acessíveis, a iniciativa, intitulada Fragmentos da Memória, quer reforçar que a preservação da história negra é essencial para compreender a formação do país.
O projeto foi construído a partir de um conjunto documental chamado passaportes de escravizados, que eram registros usados para controle estatal que continham descrições de características físicas das pessoas. “Quando uma pessoa negra, escravizada ou liberta, transitava entre uma província e outra, o Estado brasileiro, a capitania e a polícia estabeleciam um documento que permitia que ela se locomovesse”, explica Jorge da Cruz Vieira, conhecido como Jorge X, diretor do Apeb e idealizador do projeto.
“Tamanho, cor de olhos, tipo de cabelo, tudo isso estava descrito no documento. Foi daí que veio a ideia de usar esses marcadores raciais para criar as fotografias.” As descrições foram, então, transformadas em comandos para ferramentas de inteligência artificial.
Interpretar os marcadores raciais descritos nos documentos exigiu uma reflexão cuidadosa da equipe, diz Jorge. “Os termos utilizados nos documentos eram, muitas vezes, agressivos, afinal, quem descreveu nosso povo foram as mãos brancas dos cartorários.” Isso, afirma ele, influenciou a forma como a população negra foi registrada historicamente.
Além disso, a equipe enfrentou desafios técnicos, como a dificuldade de algumas ferramentas na hora de retratar traços característicos das pessoas negras. Ele explica que o processo precisou de ajustes constantes para evitar que os retratos criassem distorções ou feições estereotipadas.
Muitas ferramentas também tinham dificuldade em criar roupas e cenários que representassem o Brasil, baseando-se em referências norte-americanas ou europeias. Por isso, a equipe optou por fazer os retratos em fundo neutro e com roupas simples, definidas a partir de uma pesquisa sobre os trajes mais comuns do período.
Para superar as limitações, a equipe recorreu ao cruzamento de diferentes fontes documentais, como títulos de residência, cartas de ocorrência e inventários, que também continham retratos falados em seus registros. Além disso, combinou o uso de mais de uma ferramenta na produção das imagens, identificando qual IA funcionava melhor para determinado tipo de retrato. O objetivo era garantir retratos que respeitassem a dignidade e a individualidade das pessoas representadas.
Entre pesquisadores, historiadores e profissionais de tecnologia, 14 pessoas fizeram parte da curadoria do projeto.
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O conjunto de documentos utilizado para a criação do Fragmentos da Memória foi reconhecido pela Unesco em fevereiro e passou a integrar o Registro Regional da América Latina e Caribe do Programa Memória do Mundo da organização. a coleção tem registros de pessoas escravizadas, livres e africanas que vão de 1821 a 1889.
Lançado em julho do último ano, o projeto culminou em uma exposição com 40 retratos, aberta ao público para marcar o mês da consciência negra em novembro passado, no Shopping da Bahia, em Salvador.
Jorge conta que seu desejo é que as imagens continuem a repercutir e jogar luz ao trabalho dos arquivos públicos. “O que nós fazemos é manter a memória do Estado brasileiro. Sem isso, é fácil suplantar quem nós somos. Nossos reis, nossas rainhas, nossas revoltas.”
O diretor aponta a presença de pessoas negras em posições estratégicas como fundamental para ampliar o olhar sobre acervos históricos e promover novas leituras sobre o passado.
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noticia por : UOL




